domingo, 3 de setembro de 2017

Identidades Roubadas: o romance!



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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Lançamento Oficial e Apresentação do romance Identidades Roubadas



  
        Diferente dos artistas que aqui se apresentam, não sou poeta ou poetisa. A minha escrita é a prosa. Segundo Otávio Paz:

A prosa, que é primordialmente um instrumento de crítica e análise, exige uma lenta maturação e só se produz após uma longa série de esforços tendentes a dominar a fala. Seu avanço se mede pelo grau de domínio do pensamento sobre as palavras.

            No entanto, toda a linguagem literária é uma linguagem artística e a arte rompe com o senso comum. Senso comum é aquela forma de pensamento que só repete e perpetua o já dito. Portanto, a arte diz diferente, desconstrói a pseudo-normalidade trabalhando nas margens ou com as margens. Ou seja, tudo o que se situa fora do centro. Fora da dita normalidade, inexistente.
Vivemos em um momento de ruptura dessas ditas “normalidades”. Momento que se trabalha com a diferença e onde o foco é o diferente. E é nesse momento histórico que se encaixa o meu novo romance, sendo lançado, oficialmente, nesse espaço. Um romance que desconstrói a figura mítica da maternidade. Não para apregoar a inexistência de mães boas, mas tal qual Winnicott mostrar o contraponto: a mãe ruim, doente, que não escolheu ser mãe e que não assume bem esse papel.
            E só podemos conhecer essa mãe, por meio do protagonista do romance, seu filho: José! Através de José que se lança um holofote sobre a perversidade materna, veículo condutor de uma violência doméstica que despersonaliza o filho, roubando-lhe a identidade. Segundo Lya Luft: “Nem toda mulher nasce para ser mãe, e nem toda mãe é mártir. Muitas são algozes aliás”. Na página 7:

Nasceu macho. Essa foi a única alegria que deu a sua mãe. Seu nome era José, como o da Bíblia, pois sua mãe era uma católica fervorosa, dessa forma se auto-denominava. Por isso, abominava ter sido tocada pelo marido e desse fruto gerado um filho. Mesmo assim, orgulhava-se de dizer aos vizinhos que o filho era homem. Não se aproximava da criança, a não ser para cumprir o seu papel de mãe devota, mas não o cumpria tão bem assim... E tinha a si mesmo em alta conta por ser tão resignada com o que o destino mal lhe reservara.

            Por não ter ancorado a identidade do filho, o criou perdido, buscando, desesperadamente, o amor dessa mãe. Como se o problema da falta de amor estivesse na criança inocente?! Na página 29: “José voltou para casa, quebrado, mas lutando contra isso, tentando lembrar que conseguiu muitas mulheres e com raiva da maldade delas. E profundamente humilhado por voltar à casa da mãe”.
            Diante disso, nem sempre o retorno ao lar é a salvação, às vezes, a fuga é a solução mais saudável. Uma figura ferida em sua mais tenra infância e que tenta se reconstruir ou construir? Porque na página 85:

Punido, rechaçado, humilhado eram as únicas certezas de personalidade que o protagonista possuía. Muitas vezes pensava sobre si mesmo e imaginava quem era fora desses sentimentos. Nem no seu melhor relacionamento, se sentiu de verdade, somente tentava-se agarrar com todas as forças.

Buscando nessas outras mulheres o preenchimento do vazio qua a primeira mulher de sua vida lhe tinha imputado, viveu só fantasias e ilusões, não pode ou não conseguiu construir de verdade.
            Andava assim no meio das chamas e do inferno. A pergunta que faço para aqueles que, ainda, não tiveram a experiência de mergulhar nessas páginas é se na página 88: “Havia uma construção de desamparo e tragédia fortíssima em sua mente que sem um tratamento terapêutico, seria muito difícil desaparecer, assim, do nada”. Qual será o caminho para tratar as vítimas da violência doméstica? Pois na página 115: “Diminuindo sua autoestima, prejudicou bastante o seu pleno desenvolvimento...”.
            O livro, então, é a jornada de José para descobrir sua identidade, mas será que ele consegue? Assim, deixo a pergunta que nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade fez: “E... agora José?”
Margareth Sales

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Morando sozinha




Esqueça aquelas bobagens de... andar pelado pela casa, qual é a importância cósmica disso? Desejo infantil, né? O desejo de morar sozinho está ligado a assumir-se. Não tem a ver com comer porcarias, qualquer criança de, hoje em dia, faz isso... Quantos Fandangos se vendem em um supermercado?! Comer porcarias é prejudicial à saúde e uma escolha, uns optam por saúde outros por suicídio lento. Morar sozinha é mais do que isso, é assumir-se e seu lugar no mundo, tornando-se adulto e dono de um discurso de que o nariz é seu.
Dominar o controle remoto? Sério! Você quer sair de casa por isso? Nos dias de hoje, também, cada um tem sua própria televisão e se não, seu próprio computador, existe uma geração inteira que não assiste mais TV e plugga no Youtube.
Cantar alto sem passar vergonha, mais uma falácia do ideal de ter seu espaço... Queremos nossa casa porque queremos nos sentir realizados é sermos capazes de construir uma vida. E não para arrumar a casa quando quisermos, se a pessoa for adepta da bagunça, do chiqueiro (para pegar pesado) é com ela, nada disso é pré-requisito para morar sozinho.
Desmistificando o senso comum, morar sozinha não é sentir falta da comida da mamãe, principalmente quando você cozinha bem! Ser mais vítima de assalto. Para! Tá feio! Todos são potenciais vítimas de assalto, é só procurar um local seguro (nenhum é, claro, mas tente o melhor possível), amizade com os vizinhos e todas as dicas de segurança que qualquer um segue. O medo de pagar todas as contas? Pagar contas é amadurecimento, todos terão que fazer isso! Só se a intenção for imortalizar a mãe, à semelhança de Norman Bates. Cozinhar só para você é a coisa mais sensual que você faz quando se gosta! E aí tem-se momentos de cozinhar para os amigos e, também, o parceiro... Lavar a louça sozinha? Com certeza, é uma das coisas mais chatas, porém em compensação, você tem sua casa, sua vida e as regras são ditadas por você! Posso afirmar que compensa!
Margareth Sales

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Tessituras

Texto feito em aula

 
      A partir da língua constrói-se um imensurável objeto significativo. E esse universo dá sentido ao todo em que estamos imersos, portanto, tudo começa e, tal como o big bang, se amplia via palavra. Cada micro-universo inserido, semanticamente, em um único substantivo irradia questões e conceitos que vão sendo experienciados pelo portador da fala e seus interlocutores.
            Haja vista que ao enunciar uma primeira palavra como, por exemplo, língua, desdobra-se para um substantivo correlato como nação; de nação chega-se ao indígena ou índio. No entanto, poder-se-ia seguir outro caminho, como, por exemplo, língua: parte do corpo com que se articular sons; de sons puxar para música, de música para arte. Isto porque o texto começa na palavra. E texto é teia que se entrelaça para todos os lados e todos os lados lembram os pontos cardeais. E veja? O texto tecido, entrelaçado, mudou o rumo novamente, mas ao mesmo tempo confirma a primeira premissa de que o falar tem em si um caráter polissêmico.
            Nesse sentido, pode-se concluir que ao tecer um texto, partindo de uma pequena palavra o enunciador pode corroborar um discurso primeiro. Ou... o mais maravilhoso da palavra: criar novos mundos, vivos, pulsantes, cheios de significado de uma única e simples palavra, como língua, por exemplo.

Margareth Sales



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Profissão Escritor


A vida que eu escolhi é muito difícil. Se a primeira frase já não bastasse, ainda tem os agravantes, ser minoria em algumas situações. Ser mulher não me impede de ser escritora, mas ser mulher e escritora me faz mais sensível do que a maioria! Claro que em uma sociedade de espetáculo, só compram a minha força, não sou tão forte assim! Aliás, sou exemplo da sensibilidade e, por ser mulher, abusam disso: mandam eu segurar o choro e eu choro, choro muito: choro na faculdade, choro nos empregos que tive, choro no cinema, no teatro, na minha casa, na casa dos meus amigos, nos restaurantes! Resumindo: Eu choro! E mandam eu travar o choro. Minha última empregadora disse que para eu sobreviver nesse mundo masculino eu tinha que travar o choro. Mandou literalmente, numa discussão eu parar de chorar! É medíocre essa posição. 

É difícil e é doloroso! Não quero competir em um mundo de homens, estou competindo em um mundo de gente. Gente que chora muito, gente que chora pouco, gente que parece não chorar (mas chora, todos choram!). Ter chorado nos cantos da faculdade não me define, não sou essa pessoa, tenho esse traço, mas o traço não me define. Quero chorar (quando necessário) e ninguém para dizer que não posso ou não devo. Porque não só posso, quanto devo! 

Outra minoria que me incomoda: eu ralo pra caramba, trabalho muito, sempre. E, sempre, também ouço dizer que não faço nada. Dizem isso menos, hoje em dia... as pessoas tem medo de me confrontar, pela força citada anteriormente e quando choram alguns abusam. 

Eu quero ganhar dinheiro sendo escritora, eu quero ganhar dinheiro, porque dou minha alma nisso todos os dias. E não considero demérito ganhar dinheiro porque é arte. É arte e trabalho, trabalho que eu me dedico, suo, pesquiso, crio argumentos. Trabalho trabalhoso e que dá prazer. A sociedade inveja ter prazer no trabalho porque a lei que inventaram (que precisa ser questionada diariamente) é que todo trabalho pressupõe desprazer. 

Como é maior a massa de manobra do que quem chega lá! A inveja para os que chegam é maior e por isso tanto bolsomito no mundo demonizando a lei Rouanet! Opto por não comprar o estigma de poeta marginal, sou marginal sim, pois me encontro nas margens, na "periferia", na realidade, região metropolitana profundamente rechaçada (mais uma minoria). No entanto, não compro e não vendo o título de marginal, quero para mim tanto quanto para os meus companheiros de margem o mesmo privilegio do centro. 

Quero dinheiro para comer e quero comer bem. Quero dinheiro para pagar minha luz, meu telefone, minha água e meu IPTU, mas não quero só isso! Quero mais, muito mais e me coloco sim junto com os que podem porque luto por uma sociedade onde todos possam! E quando eu não posso, ainda, defendo os meus direitos, porque vivemos sim em uma sociedade profundamente desigual e que se fosse real que todo trabalhar chegasse lá. Eu já estaria lá, com certeza! São no mínimo, uns 33 anos de profissão de escritor, contando 1983 como primeira inserção oficial.

Margareth Sales