sábado, 13 de março de 2010

Guerras

Uma nova realidade aprendida, neste momento, sobre a identidade é quando se possui amigos líquidos, fluídos e incapazes de ser amigos sólidos e confiantes. Esse tipo de amizade, doente, diga-se de passagem, só pode gerar um único sentimento, o da guerra, constante, ininterrupta e sem tréguas. Como se vive em uma guerra constante, em todos os níveis, tanto o espiritual, pessoal, financeiro e outros. Cada qual se arma da forma como consegue, às vezes a unhas e dentes. Por esse motivo que aqueles que, ainda (e talvez, nunca!) adquiriram sua identidade, tem como moeda de barganha o outro.
É nisto que constitui a diferença entre os que têm ou não tem identidade. Enquanto os que não tem se armam com a personalidade do outro, muitas vezes, não se poderia nem dizer “personalidade” mas o fenótipo do outro, quando este é mais bonito. Ou quando é mais inteligente ou possui recursos financeiros, do qual não se tem competência para adquirir.
A pessoa sem identidade então se arma da identidade de outrem, para fazer disto sua moeda de barganha. E então enfrenta o mundo assim, de “peito aberto”, como o famoso comercial televisivo: “eu tenho, você não tem!”.
Como se usando a alteridade, pudesse fazer calar os que se opõem, e geralmente, os que se opõem e os que são um risco para essa modernidade líquida, que Bauman tão bem fala, são os que têm identidade. Esses se constituem os inimigos da sociedade atual.
E estes inimigos tais quais os heróis históricos são perseguidos sem piedade, como “Joanas D'ark's” loucos por não seguirem a regra do senso comum... Loucos por não compartilharem a ética mundana e globalizadora.
A intenção daqueles que guerreiam seria destruir o objeto que adora, pois desta forma assumiria a posição da pessoa adorada. Para fazer isso, estes falsos amigos usam do poder que a palavra tem de penetrar as consciências e incutir-lhes uma não-verdade, baseadas em situações não esclarecidas e em disse-me-disse, que na realidade não prova a proposição apresentada, mas o esforço em se tornar uma inverdade em verdade absoluta e incontestável.
Demonstra também diante de tais posições pessoais uma incompetência em ser, fazendo guerras contra os que são para que possuída da essência do ser, possam se sentir menos que vil e repugnante. Mas não conseguem, porque sua fama lhe antecede e, inclua-se aí, sua credibilidade, desgastada pelos anos que apostou nesse tipo de guerra tão inglória.
Que tipo de amigo / sujeito impotente é este que precisa descarregar toda a sua fúria contra o que não se sente impotente, que aconteça o que acontecer sempre será senhor de si, ainda que pareça, por algumas momentos, perdido!
Em suma, esse sujeito não é seu amigo. Então cuidado, caros leitores, observem muito bem quem vocês carregam sob o título de amigos, muitas vezes podemos estar abrigando serpentes venenosas, prontas para o bote! Como já disse anteriormente, o verdadeiro amigo está fundado no amor e nunca guerreia com você! Fuja das guerras inglórias, sempre!

Margareth Sales
Sobre a política

Levei muito tempo para conseguir discernir o momento atual que o país vive, mas porquê? Porque estou mais cercada do senso comum do que pessoas que realmente questionam o status quo vigente, então são muitas vozes e muitas dessas vozes não possui voz alguma, talvez a única pessoa que possa ouví-las sou eu mesma. Procuro ter sempre o cuidado de não travar as vozes dos que desejam um espaço para o seu falar, isso é ótimo, é uma de minhas melhores qualidades, ouvir sem julgar, mas há um preço: às vezes ouvimos mais um bando de asneiras de situações mal refletidas ou mal vividas que você se pergunta como uma pessoa com capacidade de reflexão crítica chegou a tão despropositada idéia?
Porque em um país como o nosso nunca se privilegiou a cultura, nunca! E mais do que isso, temos um referencial histórico de opressão profunda para fazer o outro calar, de qualquer forma, mesmo que seja através da morte. Exemplo disso? Ditadura! Durante o golpe de estado, livros foram queimados, grandes pensadores foram exilados, tudo isso, para impedir que Paulo Freire falasse através da sua alfabetização de adultos, para impedir que Caetano Veloso falasse através da sua música, milhares foram calados por meio da violência física, consequentemente, a própria morte e outros foram calados através do exílio político, esses últimos pelo menos puderam voltar para fazer a parte que lhes cabia.
Mesmo assim, nossa suposta democracia não mudou... O que adiantou ser democrático, se todo uma população que viveu na época e toda uma população que não viveu, sentiu e sente seus impactos através da força opressora de tornar toda uma população muda. Parece contraditório, parece que se pode falar, mas cada um de nós, sabe que não, cada um de nós, sabe quando o olhar opressor do dominante nos manda calar e muitas vezes obedecemos?!
Posso me reportar a mim mesmo, porque vim e não sai da camada mais inferior da população, não posso nem me chamar de classe média, quem me conhece sabe, sou pobre, essa é a realidade de onde me encontro na escala de distribuição de renda... A renda desse lado aqui atrás da tela do computador é bem suada... Como estou desse lado, posso falar muito bem dele e o que tenho a falar?
Tenho a falar algumas coisas muito importantes e verdadeiras... O governo privatizou alguns órgãos públicos... o governo, aquele mesmo que nos meus 15 anos eu confiava, aquele que passou por uma luta horrível, saiu de Figueiredo, terminou a ditatura, entrou Tancredo, morreu... Entrou Sarney, depois Collor, Itamar em função do impeachmant, Fernando Henrique, todos esses para que o líder sindicalista chegasse, ele era realmente a esperança de muitos! A minha também, achava sinceramente que Lula por vir do mesmo lugar que eu faria mudanças de base no nosso país, aí ele fez... Fez algumas mudanças e eu ficava verificando se eram mudanças reais ou eram engodo, tinha sérias dúvidas, afinal não tenho mais 15 anos, passaram-se muitos anos desde essa idade até a entrada de Lula na presidência.
Mas fui amadurecendo e vendo, e estudando e tentando conhecer, não através do Jornal Nacional, esse que alguns dizem que não sei nada porque não o assisto. Bem, óbvio é que não o assisto, entre outras coisas, porque sei que é manipulado. Porém, seguindo a minha linha de raciocinio, fui observando e fui decidindo, haja vista que leva mais tempo para mim identificar um contexto político do que o que vai dentro do ser humano! Aprendi muito mais sobre psicologia do que sobre política, não que não gostasse da segunda, gosto muito porque sou um ser político, todos somos, mas me dediquei mais ao conhecimento psicológico.
Então hoje, fruto das minhas observações tenho minha posição política formada, a pessoa que tanto esperei que fosse a solução para nosso país é, e sempre foi, marionete nas mãos dos poderosos e ainda lhe fazem uma homenagem, com um filme que deixa claro que ele nunca soube o que iria fazer, foi sendo levado pela idéia dos outros. Você não vê nem no filme e nem na política real, uma decisão que veio da cabeça dele, apenas pontuações de uma acessoria que lhe serve.
Em 1985 eu pensava, caramba, Lula veio de baixo, Lula é pobre, ele vai salvar a gente, vai salvar a gente dessa miséria, com 15 anos você não pensa em cultura, você não pensa em decodificar que a grande questão de se administrar um pais ou se administrar qualquer instituição depende de conhecimento. E se você tem conhecimento você sabe onde vai meter a sua mão, onde deve meter a sua mão. Lula quando chegou em 2003, muito tempo depois do final da ditadura, não foi a solução, ele foi simplesmente fantoche na mão de um monte de gente, claro que ele foi temido no passado, ele foi temido porque ele movimentava as massas e isso é muito perigoso.
Toda política vinda das classes dominantes tem a característica de mexer sempre seus pauzinhos para que a massa não se movimente e Lula fez, exatamente, o contrário, ele movimentava as massas e a ditadura tinha medo dele, claro, só que ele movimentava as massas pelos aspecto totalmente carismático, mas ninguém tinha noção que faltava alguma coisa e o que faltava? Faltava cultura, falta conhecimento... Não é o fato de falar “errado”, porque a língua que a gente fala é a nossa língua, não há “erros” quando se fala a língua materna. Mas o fato de não conseguir usar bem a sua estrutura linguistica prova que não se buscou por todo um campo de conhecimento para decidir algo. E não podemos decidir nada em função de apenas um aspecto, tem que se decidir algo em função do todo e para isso é preciso abrir o leque de opções.
Para isso, é preciso conhecer, de sociologia a psicologia, de política a religião, porque a vida não é feita apenas de um traço, mas de vários, n circunstâncias que precisam ser vividas. Então você pega alguém que não sabe; como ele vai administrar, como vai governar? Aí, o que ele têm, acessores? Parece quando fazemos uma cola, o amigo diz: “Poxa, você não estudou não, te passo uma cola”, pronto, tá mastigadinho... Isso não é pensado, não é mudança e não causa mudança, se um acessor, uma pessoa com mais cultura como um psicólogo, um sociólogo ou algum “ólogo” qualquer ensina ao Lula, ele simplesmente passa uma situação, ele mastiga uma situação, mas ele não ensina o que é. Então não há um Estado, não há, verdadeiramente, um Estado que funcione... A realidade é que o Lula não é um grande governo, exemplo, ele não faz nada pela educação, ainda que ele dê uma bolsa família para que o aluno esteja dentro de sala de aula, os alunos vão, mas onde está a valorização do professor? Onde está uma escola de qualidade para receber esses alunos? Esses alunos, vão a escola por dinheiro, para ganhar R$ 100,00 reais por mês, eles não vão para aprender e os professores já estão desmotivados ou muda-se a educação de base ou ferra-se com a educação e a educação já está ferrada!
Assim, considero hoje a nossa política uma política de pão e circo, dá-se o mínimo e isto para a camada mais pobre, para que esta não se rebele. E olha que legal?! Ganhamos as Olimpíadas em 2016, quer dizer é muito circo e pão para o povo brasileiro não reclamar de mais nada da vida. Haja vista, que todas essas culturas de massa atraem milhares de pessoas, muitas vezes até aquelas que se encontram fora do contexto da massa, porque óbvio, num país que se paga de telefone mais de R$ 100,00, Luz em torno disso, temos água ainda, IPTU, soma-se tudo isso e se paga com o ÚNICO salário mínimo que se recebe.
Sobra o quê para o desestresse? Para curtir um pouco a vida? A Rede Globo de Televisão que já se encontra no pacote de impostos que cada cidadão paga. Por tudo isso a gente se cala, quem vem de baixo aprendeu a ficar calado diante da prepotência do dominante, temos medo do governo, temos medo de ser massacrados pela Ampla que cobra um absurdo de conta de luz, temos medo da Oi, em ultrapassar nossos limites de crédito e aparecer uma conta que não podemos pagar. E a gente tem medo porque acontece, porque todo pobre já foi vítima de alguma conta absurda que arrepia até os cabelinhos da alma (se alma tivesse cabelinhos). Ai temos que correr atrás de um advogado público numa fila imensa para conseguir processar a organização que tenta nos lesar. Assim, ocupando horas do nosso dia e tempo é dinheiro e dinheiro serve para pagar a conta que extrapolaram, e olha que todas as empresas citadas, tentam nos lesar!
Pobre é assim mesmo, bichinho acuado com medo de tudo. Mas porque na realidade quis falar sobre esse tema, afinal de contas o enfoque do meu blog é um enfoque comportamentalista, não político? Porque vou falar de sentimentos, sentimentos vividos essa semana, onde ouvi de alguém, vamos dizer, alguém maior do que eu. Porque maior? Maior num sentido estritamente social... Maior porque já trabalhou muito mais do que eu na vida, já tem a vida estabilizada, todo mês com certeza o salário da pessoa chegará certinho... Eu não, eu sou menor, amadureci tarde; fiz tudo que eu queria fazer cedo, muitos anos mais tarde, não conto com nenhum salário fixo todo o mês, mas com a força do meu trabalho.
Mas essa pessoa me humilhou ao questionar a forma como eu tento conseguir as coisas e que forma é essa? Através de indicação, eu ouvi que eu deveria ir pelos meios institucionais e eu fiquei calada, submissa, como todo pobre sabe fazer muito bem! Só vinha dentro de mim frases do tipo: “você está errada, fez tudo pelo caminho errado!” Bem, minha resposta agora, depois de dias que se passaram é: o caminho que escolhi foi o caminho que representantes da classe social da pessoa me ensinaram, nunca aprendi outro caminho...
E é esse que tem funcionado... Agora vem alguém de cima, de um dos melhores bairros do nosso país dizer que sempre optou pelos meios institucionais, porque me tratar como se eu realmente não tivesse vivido tempo suficiente dentro dessa Terra, especificamente dentro do meu município para saber o que funciona ou não?! Porque provavelmente o dentista que precisava tinha, o médico que precisava também, daí é muito fácil dizer que as coisas funcionam... Quero saber onde as coisas funcionam porque mudo para lá!
Finalizando, só o que eu lamento é que era mais pobre ainda do que sou hoje e que por isso deixo me humilharem por questões que eu nem mesma criei, já estavam aí antes de eu chegar e ainda apontam caminhos... Bem, eu trocaria de vida, se pudesse, e munido da minha estória quero ver se essa pessoa que tem uma visão tão esclarecida das coisas, ou seja, é tão certinha, queria realmente ver como ou para onde essa, levaria minha vida... Uma coisa garanto, não faria melhor do que eu fiz! A frase que termino não é que é muito fácil falar, mas que é muito fácil FAZER CALAR. Quero ver competência para ouvir e entender!
Margareth Sales

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sobre o suicídio

Talvez esse seja um dos temas mais polêmicos escritos até agora nesse blog, mas meio que fui levada a comentar sobre isso, em função de uma semana confusa e o término com dois filmes maravilhosos que pontuam bem o assunto...
Bem, não falarei dos filmes, mas dessa concepção e de quem são essas pessoas chamadas suicídas? Loucos? De todas as minhas leituras e experiências empíricas, posso dizer de início que o suícida foi uma criança com um ego não desvinculado da mãe e provavelmente, essa mãe também seria suicida. Essa mãe pelo medo nutrido de perda de tudo e qualquer coisa que a cercava fez do filho o próprio pênis (isso Freud fala). Futuramente, essa mesma mãe passa a destruir todas as possibilidades que esse filho tem de cortar o cordão umbilical e diante disso, mina qualquer estrutura emocional, qualquer sentimento de capacidade que difira um pouco do próprio ato de fazer da mãe tudo...
São mães que usam recursos dialógicos do tipo: “mas eu faço tudo por você”; “você sabe que não sobreveveria sem a minha ajuda”. Bem, o suicida não é uma pessoa com um problema comum... O suicída é uma pessoa extremamente transtornada e reflexo de cobranças que fazem em cima de sua pessoa. Imaginem que essa pessoa que é tão mal vista na sociedade na realidade nunca quis se matar, praticamente ele é levado ao ato... Imagine essa mesma mãe no desenvolver dessa criança, dizendo, exatamente, tudo o que essa criança deve, deveria ou pode fazer.
A onipotência de tal criatura é tamanha que ela sempre sabe o melhor para o filho, então, ela vai escolher a roupa do filho, a namorada do filho, o emprego do filho, os momentos de lazer do filho - e aí me refiro ao filho de 40 onde a mãe ainda decide que ócio não é criativo e que produção constante é só o que deva ser.... Doenças? Apenas desculpas, para o preguiçoso do filho... E olha que o suicida de 40 já venceu grande parte da vida, porque o meu vizinho suicidou-se com uns 25 anos, jogando-se de cima de um prédio na direção dos fios de alta tensão...
Nenhum ser humano é capaz de suportar ininterruptamente uma pessoa que fala todos os dias, sem parar um minuto sequer como você deve ser comportar, como você deve agir, com que pé você deve levantar da cama... E sobre a sua incompetência, o quanto você é incapaz de seguir ou de gerir a própria vida...
Desculpe falar, se eu tivesse uma mãe dessa, esse blog não seria feito, eu realmente já tinha optado pela morte... Mas saindo das piadinhas... O suícidio é a dissociação completa do ego, este se torna fragmentado, não há mais segurança em lugar nenhum, a alegria foi embora, o suicida não sente mais paz e perdeu a esperança, não há mais o que o faça ficar.
Aí entram outras dores... A do suicida já é bem conhecida, suicida cristão luta contra o maior poder do universo, o Deus e o de Sua determinação, não quero estar na pele de uma pessoa que foi tão corajosa ao ponto de desafiar o próprio Deus, talvez errada mesmo, tenho quase certeza que errada e o suicída deve ter também, mas não havia nada a ser feito!
Ao mesmo tempo que uma atitude corajosa, uma atitude covarde sem dúvida, então o suicida é a representação da própria antagonia. E não precisamos enumerar porque suicidar-se é covarde, começa pelo fato de não ter coragem de encarar a própria vida (mas você tem coragem de cobrar esse jargão do suicída, eu não! Prefiro mil vezes tentar me solidariezar à sua dor) e termina com o egoísmo de ferir todo o seu círculo de pessoas significativas.
Se o suícida vai sentir mais dor do que aqueles que ficam, não sabemos, só sabemos que fomos treinados a raciocinar e não questionar que lugar de suicida é no fogo do inferno... E aí entra mais uma vez a coragem do suicida em tentar acreditar que não existe mais inferno do que o que ele já vive...
Quero finalizar, com a maior dor do suicídio que é a dor de quem fica... Começando por aqueles que amaram a pessoa e se sentem os piores de toda a espécie humana porque logo se perguntam: “meu amor não foi suficiente?”, sentimento totalmente incapacitante...
Depois vem os amigos do suicída que em função do impacto vão apresentar um medo substancial de envolvimento com novas pessoas, alguns até mesmo dirão que não querem mais amigos!
Por último os que souberam, vizinhos, notícia de jornal, entre outras possibilidades, esses se questionam sobre a inutilidade da vida, porque terminar assim... E é muito difícil questionar sobre a inutilidade da vida, quando já é inútil pagar o absurdo de impostos que pagamos, o risco que corremos nas ruas entre tantos outros absurdos da raça humana...
Minha única mensagem final: amem, amem os amigos, amem as famílias, amem a natureza, amem a Deus sobre todas as coisas para que não sejamos surpreendidos por esse tipo de dor, mas para que saibamos distribuir alegria, mas do que tudo a alegria de viver!

Margareth Sales

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Antropologia de uma noitada de Carnaval

A noite possui essa capacidade de revelar a insanidade das pessoas... A noite de Carnaval muito mais... Pois se de médico e louco todos temos um pouco, as noitadas da vida despertam não o médico, mas o louco, esse que aprendeu, me pergunto onde e com quem? Que a melhor felicidade da vida é chapar!
Para mim mais parece um anestésico sobre a política do Lula, o preço que a Ampla cobra pela conta de luz, a eterna dúvida entre ter um ar-condicionado e não poder usá-lo, porque a luz vai a pico, entre tantas outras mazelas que esse povo, onde o comercial enaltece que somos brasileiros não desistimos nunca, padece...
Na minha concepção sair de horas de trabalho pesado, para um happy hour onde podemos chapar não é sinal de força, mas que ALGUÉM já desistiu há muito tempo...
Aí, finalmente, chega aquela semana que todos os brasileiros passam quase 365 dias esperando: a semana do Carnaval, e que semana agitada, onde todos ficam tão felizes... Será? Bem, pelo menos há 39 anos eu vejo malas passando, pedidos de colchonete emprestado e aquele sorriso orelha a orelha, onde se diz: “a semana mais feliz da minha vida chegou, finalmente, uffa!”
Será que é assim mesmo? Ou será que mais uma vez compramos mais um pacote pronto do nosso famoso capitalismo selvagem? Sim, depois que todos chegam posso dizer que as notícias das maravilhas que aconteceram nesse Carnaval excederam a qualquer sensor de felicidade. O engraçado? Todo ano excede... Qual é desse sensor? Fico com uma cara meio desconfiada para ele, porque o ser humano não é um bichinho domável que aceita a mesmice com facilidade, nosso coração pulsa pelo desejo, segundo a filosofia, e este desejo sempre se encontra um patamar acima de onde estamos. E diante de tudo o que me contam e de como foi esse tão “maravilhoso” Carnaval, me parece apenas a repetição do Carnaval passado... Ou melhor, parece alguém repetindo pela 37.689 vez que “é praver e não para comer” e todos caindo na gargalhada, pela 37.689 vez. Estão me vendendo gato por lebre?
Meus neurônios se põe a pensar agora sobre essa motivação tão intensa para com o Carnaval. Acontece assim: na primeira parte desse processo, se encontra a preparação, para alguns começa às 19, 18h, para outros às 22, 23 horas. Atualmente, é mais geral o horário mais tarde. Depois da preparação vem a apreensão: será que hoje vou me dar bem? Esse é o Carnaval dos solteiros, o dos acompanhados beira a música, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu?! Ops! Será que estou morta, na realidade fantasiada de noiva cadáver até me sinto com esse joelho suturado e seus 19 pontos, mas... voltemos a crônica.
Depois da preparação e da apreensão cai-se no mundo, são saltos altos ou baixos, de acordo com o estilo, vestidos sexys ou shorts sexys, carnaval combina mais com shorts e decotes. Excesso de maquiagem, chaves de carro balançando e o poder de ser um cavalheiro e bancar a noite da dama. Não estou me referindo as excessões e sim as regras, aí há uma infinidade de variações que ficam por conta da contingência humana.
Chega a noite e, tudo preparado para chapar, ou seja, ficar doidão, chegou o momento da onda, do barato, na época da minha mãe o barato envolvia lança perfume, hoje tem um montão de outras substâncias para se entorpecer uma noite que diz-se ser sinônimo de alegria. É um tipo de vida, e é o tipo de vida da maioria, o que pressupõe que você não fazendo parte da maioria é dissidente ou mané?!
Bem, no momento me sinto a menos manés das manés, bem conformada com o fato de que levei um tombo, meu joelho abriu, não quebrou nada, mas tenho dezenove pontos e um joelho que não pode se dobrar, pelo menos nos próximos 10 dias, senão os pontos estouram... E mesmo assim, não sinto nem um pouco a falta da agitação do Carnaval, disse via msn que iria aproveitar para estudar, ler, a contra-resposta: “ainda bem q vc curte fazer isso né”, tenho para mim que o tom foi... PERDORA! Fiquei passada, mas é natural, estou acostumada a ficar passada com o que as pessoas consideram, em outras palavras, EM QUE as pessoas investem...
Sou questionadora, adoto uma posição crítica em cima desse mundo embrulhado em papel celofone que te vendem, dar não! Nada aqui é de graça, tudo tem um preço! Como o ser humano consegue sobreviver ou mesmo viver com tanta degradação, com tamanha capacidade de se vender ou de comprar qualquer coisa, qualquer um, sem questionamentos. Alguém fez muito mal a humanidade e uma coisa garanto, não foi Deus!
Quem são essas pessoas que vemos à noite no Carnaval? Quem são essas pessoas que NUNCA poderiam se ver suturadas em pleno Carnaval e destituídas do poder de colocar um salto (para as mulheres), chapar (geralmente para os homens), não pegar ninguém no Carnaval? Quem são esse seres que vagam a procura do melhor bar, do melhor Carnaval, seja ele na Sapucaí, em Arraial do Cabo, Cabo Frio ou Saquarema, ou também do melhor encontro, para alguns só o amasso, para outros uma noite digna do Kama Sutra? Como se diz a música o que se espera de um sabádo à noite? Sexo, com ou sem bebida sai-se para encontrar um parceiro sexual em potencial, nada mais, nada menos.
E assim se vive, e assim se compra um pacote pronto de vida e assim se sabe que se você, reles mortal fugir a regra, o Capitalismo com todos os seus desdobramentos vai cair de pau em cima de você! A pergunta mais profunda... Isso tudo gera felicidade? Esse Carnaval que me contam, que foi ao auge da excitação, essa transa gostosa com o cara ou a mina mais gostosa, era realmente o que se buscava, respondeu a todos os anseios e questões dos 15, 18, 25, 30, 45 anos vividos? As relações humanas são bem mais complicadas, a felicidade verdadeira exige muito mais, ela nem sempre é tão fácil assim, e por ser mais difícil e mais reflexiva do que se queira o caminho mais fácil, do tipo Leão da Montanha, Saída pela esquerda, com certeza é entorpecer-se.
Entorpecer é sinônimo de não sentir e isso eu não precisa repetir pois estamos “carecas” de saber... Eu posso resumir o que esse contingente busca no Carnaval ou nas noitadas: encontros, talvez até para aqueles que já tem seus parceiros, porque talvez eles queiram o encontro com um novo emprego, representado por um novo chefe em potencial que este conheceu numa balada da vida, probabilidades? Existem, não vou apresentar números...
Encontros então é a resposta para o ser humano... Encontros é o que se busca, tem gente buscando um encontro espiritual, outros o carnal, há os que buscam um encontro consigo mesmo há anos e nem se deram conta disso... Mas a dura realidade apresenta encontros e desencontros. Como viver apesar de? E a receita é... NÃO HÁ RECEITAS! E fim de papo... Agora, me deixem em paz e não venham me trazer receitinhas prontas de felicidade e nem olhar enviesado porque eu estou curtindo o meu Carnaval vendo DVD, lendo, estudando e escrevendo... E tenho dito!

Margareth Sales

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

E não houve outro jeito, era amor!

Não posso dissociar amor de Corintíos 13, especialmente em seu primeiro versículo: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa, ou como o sino que tine”. Nos dias de hoje, essa falta de musicalidade nos relacionamentos, esses sentimentos parcos e frios que soam apenas como algo em que se bate e não se produz som, nem há vida, é porque o amor vem ao longo dos tempos esfriando. Não é preciso citar aqui as prováveis causas desse tão grande esfriamento, porque não quero falar de causas, quero falar do amor!
Quero falar de amor sólido que contrapõem a liquidez moderna, que se estende para o cuidado com o outro, que se estende para desafiar o outro a viver, novamente, quando esse já nem mais queria. E esse amor sólido existe e se encontra em uma amizade, num relacionamento amoroso ou mesmo na troca com a alteridade, troca genuína essa, troca de vida, de corpos quando se trata do amor eros. E esse é a chave mestra da felicidade é de onde tiramos o alento, é de onde vem a alegria e essa se desdobra em alegria de viver...
Amor assim, infelizmente não se encontra fácil e não se encontra por ai, em qualquer esquina, porque difere da paixão, porque difere do desejo, mas que encontra tudo isso em seu cerne. Eu nunca vi nada igual quando deparei com ele pela primeira vez, porque eu já havia visto tudo separado, já havia visto desejo intenso, sexual ou não, já havia visto admiração, já havia visto apreço, já havia visto companheirismo, mas nunca havia visto tudo isso misturado, tudo isso fortalecido e sacudido no liquidificador da maturidade.
Esse amor não tinha dimensão era maior do que eu mesma, quando o vi pela primeira vez! Muito maior que a minha capacidade de dar amor. Esse amor um dia me tirou o ar, porque foi lá dentro do meu coração, dentro da sede das emoções e mexeu com a dor que existia lá e não só mexeu, sacudiu ela, sacudiu tão forte que ela foi obrigada a sair e quando saiu veio arranhando, veio cortando e despedaçando e parou na garganta e sufocou, pensei que fosse morrer... Mas o amor me levou para perto da janela e a abriu e me ajudou a respirar e me forneceu ar e me deu esperança e opção quando finalizou com O abraço.
As amizades sólidas vieram desse amor que encheu meu tanque e então pude dividir, doar. Essas são aquelas que se tornaram apesar de não seguirem ou, mesmo, burlarem todas as regras, porque não esperam, porque simplesmente, se vêem abatidas por um sentimento tão intenso que não há como refrear e, mais do que isso, contra toda a racionalidade: “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta” (1Cor:13:7). E como se baseia unicamente no amor, o que excluí a possibilidade de egoísmo, porque o amor não busca os próprios interesses. Talvez este tipo de amizade inicie nos últimos dias do começo de sua vida, cunhei essa frase nesse momento, onde percebe-se que para trás ficam os dias maus e que agora uma nova fase se inicia. Em outras palavras, as amizades sólidas surgem na maturidade. Sabendo-se que existem amigos que nos acompanharam de longas datas, até aqui, para estes, digo, que o despontar da maturidade sela o selo.
Haja vista que crescimentos são feitos com altos e baixos, dissoluções e companheirimos, brigas e retomadas, a diferença entre a verdadeira amizade e aquela que não irá a frente é tênue, pois as duas comportam estas idiossincrasias. A diferença fundamental é que custe o que custar, aconteça o que acontecer... o laço se solidifica e não arrefece! A diferença é que você foge léguas, mas quando percebe está novamente em frente ao amor e quando bate de frente, não consegue e não intenta fugir. A gente chega muito longe para voltar e mesmo que se pudesse voltar não há mais voltas, ficamos enlaçados para sempre, laços de amor.
Então a amizade sólida é constituída com regras de reciprocidade e uma forma madura e profunda de se colocar no lugar do outro. Sendo então, reciprocidade diferente de coação, não há como agir em um estágio infantilizado onde se pede ao outro confiança cega, sem explicações. Essa relação unilateral não se assemelha de modo nenhum com uma amizade sólida, pois impõe no lugar do mútuo acordo. Olhar para o outro também é fundamental e isso requer parar de olhar para o próprio umbigo! Disso deriva respeito mútuo e autonomia.
A verdadeira amizade cura a solidão, não porque está sempre ali, mas porque cria uma certeza tão absoluta dentro de nosso coração que este nos tranquiliza no meio da tempestade. Quem aprende amar a um amigo, a um irmão aprende a amar o futuro companheiro (a).
Esse amor eros vem até você de certa forma quando você está despercebido da vida, quando você está tão atarefado dando conta de mil outras coisas e não enfocando-o que não percebe quando ele chega, se aloja e se faz!
Há muitos anos atrás eu havia feito um pacto com Deus, eu prometi a ele que quando o amor chegasse eu o reconheceria, mesmo que eu viesse de uma família disfuncional, mesmo que no meu passado eu nada tenha aprendido sobre o amor. E Deus sabia que eu não poderia cumprir esse pacto se Ele não me mostrasse essa possibilidade de amor.
Hoje eu sei como é o amor, onde ele está e sei que posso doar esse amor, sei que durante toda a minha vida foi muito difícil querer dar amor, quando não tinha para dá-lo. Mas sei que a partir do momento que o descobri eu quero dividir, não posso escondê-lo, o cheiro dele é forte demais e todos sentem...
Minha vida agora é música e ainda que eu não seja musical, o que eu escrevo é, sonorizado, apaixonado, forte e impactante que confronta e faz pensar. Eu não quero mais nada dessa vida que não esteja envolto em amor, amor pelos amigos, pela arte, pela família, pela pessoa da sua vida...
Eu quero você que me olhou e me viu, por trás das cascas, por trás das falsas intenções... Se você quiser voltar para esse amor, eu vou cuidar desse amor, do nosso amor... Esse sentimento é forte e não pode ser detido e ele brota, surge e não deixa ir, mas não aprisiona, liberta no compartilhar, liberta na troca. Quando eu vi esse sentimento pela primeira vez eu fiquei extasiada, eu vi alguém se dar todo por mim, me prometer superar a própria morte para estar lá quando eu precisasse... Não estou dizendo aqui que esse amor faz voltar da morte, depois da morte não há mais volta, não para AQUI. Mas esse amor desafiou, por mim, a morte e disse que não deixaria essa pegá-lo até que pudesse me entregar sadia para o meu amor eros.
E eu sei que era você e veio até mim, chegou até mim, depois de tudo o que viveu porque buscava o amor e nem sabia que era isso que queria. Eu sei que eu não tinha visto quando você veio até mim pedindo amor, mas logo que me dei conta pude te devolver, eu te derrotei na guerra da vida, quando você se bateu repudiando esse amor, quando você mentiu para os outros e para si mesmo que não tinha importância. Eu sei que eu me vi porque você me olhou e porque você me olhou e eu me vi, você pôde chorar... Depois de muito tempo você pode chorar, você pode liberar o peso que estava sentindo incontáveis anos, porque eu me liberei para te cuidar, mesmo com medo eu me liberei para você.
Eu me defendi de você e você se defendeu de mim, a gente se bateu por isso, mas se rendeu, porque você me buscou durante tantos anos e eu te busquei e a gente se achou, porque o amor não falha, ele simplesmente acontece!


Margareth Sales

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Dança das espécies


Conheci durante a minha vida, pessoas com a capacidade de agregar, de trazer para si o grupo e cuidar dele, em contrapartida conheci tantas outras com a capacidade contrária a estas que desagregam e estabelecem uma condição de viver como um ermitão, ainda que componham um grupo social. Diante disso, também vi o agregador (a) trazer para dentro do seu grupo o solitário ermitão e este se senti tão confiante que tenta reunir o seu próprio grupo. Haja vista que ele é o ermitão solitário por contigências da vida, nunca por uma escolha saudável.
Não foi há muitos dias atrás que vi essas duas espécies de pessoas travarem uma luta feroz. Do conhecimento que tenho do público em questão, percebi antropologicamente, que o agregador se encontrava, no momento, numa espécie de aprisionamento emocional alimentado durante anos. Por isso me pareceu que a luta foi por demais feroz, vi aquele ser, pedir para sair do grupo. Vi durante esses momentos um pedido de misericórdia para com o outro e a tentativa de afinar a situação vivida. Porém também vi o resultado, quando o agregador se estendia até o outro procurando ajudá-lo, dando-lhe uma mão amiga, em seguida era vista uma algema em seus pulsos. O agregador retirou a mão e decidiu romper...
Nessa espécie de dança primitiva que se estabelece nos corpos daqueles que se encontram com a mente voltada para uma expectativa maior, uma expectativa de preenchimento interior. As pessoas se encontram, então, para uma troca interior de vida, onde eu dedico a minha vida para receber a vida do outro. Isso é relacionamento, e quando essas pessoas se empenham nessa troca então há um crescimento emocional e profundo onde cada um cuida do outro, cada um dá o melhor de si para o outro. O agregador faz isso, já tem em si inerentes essas estruturas, o desagregador não, há uma espécie de condição aviltante pregressa onde este ao invés de receber foi-lhe roubado tudo, no caso todo o amor que tinha, o que este decide então é se fechar para que ninguém entre!
O ermitão solitário passa pela vida sem ser visto ou então agrega em volta de si outras almas solitárias, como forma de troféu, como se dissesse para o mundo: “eu venci você, pois tenho quantas(os) quero. Eu já convivi muito de perto com alguns desses, às vezes eles se encontram até mesmo dentro da nossa familia. Toda essa maldade de deixarem o ermitão sem amor não significa que o destino dele era só isso, ele poderia mudar todos podem mudar, mas nem todos querem e seguem assim vida afora, é uma escolha.
Foi isso que entendi ao acompanhar mais de perto essas duas vidas, a do agregador e a do ermitão. O agregador veio como se viesse por um chamado, veio para ajudar, veio para mostrar outro caminho, que havia solução e esperanças, mas o ermitão solitário não soube discernir e resolveu roubar do agregador a paz, resolveu usar todos os recursos que tinha em mãos para tornar a vida do outro miserável. Havia aprendido dessa forma, alguém havia lhe ensinado assim, talvez a mãe? Dividir para conquistar esse era o lema, dividia a alma do outro para que na sujeição se fizesse maior e como consequência reduzia as chances de abandono, porque supostamente era o centro que envolvia tais vidas. Ledo engano, quem envolve é o agregador não o solitário convicto.
Só que esse meu amado agregador havia se perdido, pelos anos incontáveis tentando ajudar a outra alma, e passou muitos anos sem consciência de si, até que nessa noite, eu estava lá, era uma noite de festa... Eu vi o agregador colocar-se de novo no seu salto e retomar sua dignidade, ah, o agregador que me refiro aqui é uma mulher.
Assim, nessa quente e linda noite de sábado, chegou o nosso ermitão solitário que por necessidade de provar supremacia andava em bando, veio como quem aparenta ter o de melhor no mercado. Brigam com outros bandos através do poder da dominação, mas não se sabe quem é o vencedor.
Talvez o vencedor se encontre sozinho e cônscio dessa condição e que se mistura ao bando somente como parte do jogo. Mas que já escolheu o alvo e sabe onde e como atacar. Mas que para chegar lá precisa ir derrubando alguns machos impedernidos que no fundo não são machos de verdade, apenas bebês chorões. Talvez o vencedor de verdade, fosse a agregadora.
A fêmea agregadora, aquela que detêm o poder porque descobriu que saber é poder, aproveita-se de uma noite qualquer dessas para arrasar o bando inteiro, como ela faz isso? Mistura-se a um bando íntegro do qual não faz parte mas que tem acesso e usa-o como retaguarda, depois espera a chegada do bando que a quer dominar e não interagir, esse é o bando que pensa que está no poder.
Quando os vê começa a caçada, primeiro usa o poder que sempre soube que tem, para excluir e exclui visivelmente o bando, os deixa de fora, como sabe que é alvo dos olhares de rapina desses decide dar um vôo raso e desaparece por ali mesmo, mas sabe que será seguida em breve. Por isso, prepara-se para não aparentar intranquilidade ou o medo que tem de voltar a pertencer a um bando degenerado quando a sua busca é crescimento.
Depois de avistada novamente pelo bando decide agora enfrentar todos eles no campo de guerra ou, pista de dança, e como fêmea da espécie sabe muito bem quem ganha na pista: a fêmea mais atraente! E isso vai além da idade, da cor, do perfume ou roupa usada, é uma combinação do que se é, sua estirpe, com o que se usa. E BAM!!! Macho destruído, bando desfeito.
Foi isso que eu vi naquela noite de festa e há alguns dias atrás descobri que o bando do ermitão solitário, sumiu! Foram todos embora. Não houve como ficar, depois de uma queda tão feia a olhos vistos e, principalmente, depois de todos perceberem que quem agregava não se encontrava mais, então não houve quem ficasse e cada um foi aos poucos seguindo seu rumo, procurando outras paragens.
Agora a fêmea, vi a poucos dias também, a fêmea agregadora segue livre o seu curso em busca de um ideal maior, de um novo encontro, de um novo momento consigo mesma e com o outro. Busca por meio de vôos altos, porque não se encontra mais presa ao bando, mas onde seu bico a levar.
Margareth Sales

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

APRISIONAMENTO FEMININO


Num mundo contemporâneo engana-se quem crê que o aprisionamento feminino é uma coisa do passado, que ficou a anos de distância de nossa moderna realidade. As mulheres ainda estão sujeitas a sufocamentos e aprisionamentos pelo machismo, pelas condições sócio-econômicas, muitas vezes é a elas que cabe a parte mais dura e sofrida pela condição de aviltamento criado nos séculos anteriores e que aos poucos vai sendo quebrado, mas ainda não ocorreu definitivamente.

Eros, beleza, força, aprisionamento, todas essas características de uma mulher. Uma mulher que se desenvolve e se movimenta na força de sua beleza, na força de suas decisões, mas que durantes séculos fora impedida de decidir, pelo medo do seu poder, e que poder seria esse? O poder de decidir, o poder de dizer sim ou não para a força do homem, esse homem aparentemente forte, cai derrotado na força dessa mulher.


Mulher corajosa, guerreira, que não se queixa, mas que na sua cintura, requebra o jogo da vida, jogo que é necessário aturar e calar, aprisionada. Mas luta e briga para libertar-se desse jugo. Mulher bela, faceira, rendeira, olhos que afogam num mar de solidão, dor e, por vezes, alegria intensa.

Ela estava lá, as margens daquele rio, sozinha, apreciando a própria companhia, alimentando-se com o prazer de si mesma, tal como Narciso alimentava-se, curtindo sua própria natureza, a beleza da natureza que lhe cercava e o rio que a seduzia, mas que ela não intentava enfrentá-lo. Já havia enfrentado muito, durante toda a sua vida, dessa vez precisava parar. Dessa vez não queria enfrentar o rio sozinha, mas não se importava de estar sozinha, bastava-se no momento. Não estava mais aprisionada, já esteve, e quando esteve era proibida de atravessar o rio, mas agora não mais, ela podia atravessar, mas não queria. Não mais tomar esse caminho sozinha, se tivesse que estabelecer uma mudança seria acompanhada, do contrário, continuava deleitando-se no seu leito de águas cristalinas, na sua calma, o seu espaço de reflexão.

Só que o homem veio, quando menos se esperava, Yin e Yang, sol e lua, homem e mulher, duas forças que se completam, ele estava ali, depois de tanto tempo de tranqüilidade e... ele a olhou. Dessa vez, derrubando todos os outros olhares que a atravessaram, a atravessaram não a encontraram, não a deixaram ser e muito menos não a respeitaram por toda a força de movimento e vida pela qual ela tinha passado. Fizeram desses momentos, julgamento, fizeram desses momentos tribunais para que a pudessem condenar de vil, para que a despersonalizassem, mesmo que ela não deixasse.

Mas ele a olhou e a viu e a deixou a vontade e lhe falou muitas coisas em um pequeno olhar e fechou um contrato implícito de segurança e de conforto ao seu lado, declarando nesse contrato que nenhum mar a submergiria novamente, ele não permitiria. Não que ela precisasse ser salva, mas ela se sentiu confortável nessa posição, ela sabia ser sozinha, mas ela gostou da novidade, porque ao mesmo tempo que havia uma satisfação em ter escrito em seu próprio corpo, no movimento de seus lábios que ela era mistério intocável, que não se importava em guardar a sete-chaves o mapa de sua alma e não dar-lhe a ninguém, reservar só para si mesma. Mesmo assim, mesmo apesar disso, ela cedeu!

A mulher havia aprendido não que o amor aprisione, isso definitivamente não faz parte do amor, mas as vezes alguns por imaturidade ainda, aprisionam, pelo medo, pelo contrato que ainda não foi firmado definitivamente, porque descobre-se que aquela que se tem não se “pode” perder e diante disso a aprisiona para tê-la. Engano, mulher não é bicho que só fica ao lado quando é aprisionada. Submeter o outro, controlá-lo talvez até haja amor nessa relação, mas ainda não foi entendido, não foi percebido plenamente e esse grande amor que tinha chances de sê-lo, transforma-se em aversão.

Por conservar em seu cerne uma fera indomada, decidiu se deixar ali as margens daquele rio, só observando as correntezas, não esperava por aquele homem ali a sua frente, apareceu de repente, não sabia da onde veio, mas sabia o que pretendia. Pretendia ela, como um imã que lhe atraía e que fazia daquele homem forte, sem forças, por aquela linda mulher que viu no rio. Pretendia tomar-lhe em seus braços e atravessar, assim, com ela o rio. Pretendia levar-lhe aonde ela desejasse ir e pretendia ser dela. Ele também cedeu, o amor se fez, ele a dominou, ela o amansou. Ela o fez mais HOMEM, ele o fez mais MULHER. E eles cederam e libertaram-se...

Margareth Sales

(Baseado num sonho)