quarta-feira, 5 de junho de 2013

O debate





Para não desperdiçar texto, e estando na minha segunda graduação (Letras/Literaturas) porque não colocar aqui o material produzido em aula? Então, lá vai:
   
Entrevistador:
- Entra no ar o debate “sai da frente que estou chegando”. Hoje, com a presença de diversas autoridades para discutir o problema de segurança na periferia. Com a palavra, nosso primeiro participante, o delegado de polícia da 72ª DP de Niterói.
Entrevistador:
- Delegado o que o Senhor tem a dizer sobre as causas das questões de segurança na periferia?
Delegado:
- Positivo e operante. Então, as causas do problema de segurança na periferia são todas por culpa dos filhinhos de papai que sobem ao morro para financiar a vida mole desses meliantes, por meio do tráfico. Tudo isso pode ser resolvido facilmente: ignore os direitos humanos que não serve para nada mesmo e sai atirando a torto e a direito. Porque bandido bão é bandido morto.
Entrevistador:
- Vamos ver se a dona de casa Gertrudes concorda com isso. O que você pensa da ideia do delegado. Essa é a causa do problema da segurança na periferia?
Dona de casa:
- Claro que não! O problema na falta de amor e na sem-vergonhice, pois se um marido ama a esposa, não trai e cria um filho no meio de uma família unida e o amor resolve tudo. Agora esse *Pi do meu marido que pega qualquer periguete, destruindo o lar. Oro todos os dias pra o Senhor tocar no coração dele pra cuidar da nossa família na Casa do Senhor, pois família é uma ideia divina e o que Deus uniu não separe o homem.
Delegado em off para a dona de casa:
- Se quiser eu mando dar um corretivo no meliante do seu marido.
Dona de casa:
- Não! – responde ela assustada – Sangue de Jesus tem poder!
Entrevistador:
- Vamos agora à opinião do comerciante local.
Comerciante:
- Isso não é nada mais que falta de trabalho. Como todos sabem, cabeça vazia, oficina de Satanás. Ah! Eu gostaria de poder anunciar que estou contratando, o melhor emprego do bairro para esses jovens saírem dessa vagabundagem. Garanto que resolve! O horário é de 8 da manhã às 10 da noite. Sábados e Domingos, inclusive feriados. Não chego a pagar um salário mínimo, mas convenhamos, esses jovens tem que me agradecer de tirá-los da vagabundagem dos tóxicos.
Entrevistador:
- Então, aí está a dica do seu Manuel da padaria, um português, que sabe valorizar a tradição do seu país de origem, seguindo o modelo de seus ancestrais que povoaram o Brasil...
- Vamos dar a palavra agora ao Carlinhos Mar-à-dentro, ex-assaltante que se diz redimido e que cursou Direito durante os seus 20 anos de prisão. Sua posição a respeito do problema aqui levantado e o que você acha da opinião dos participantes.
Ex-assaltante:
- Bem, eu só tenho, excelentíssimo apresentador, que dizer que esses três como representantes da nossa sociedade deixa clara a explicação para tal cultura de violência que tem nos cercado todos esses tempos. Pessoas que se dizem pilares da sociedade e a única coisa que se preocupam é consigo mesmos e não com o coletivo. Diante disso, só posso inferir que vocês não me serviram de bom exemplo. Portanto: PERDEU! PASSA TUDO, É UM ASSALTO! Vocês não mereceram o que receberam da vida!
Margareth Sales

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Literatura em uma bula




Em homenagem ao meu professor de Teoria Literária I, que disse que bula de remédio não é literatura. E agora?

- Ei, você, psiu! Tá precisando de um relaxante aí?
- É, eu sei que você diz que não precisa, que você é “normal”, tá querendo enganar a quem? Nem o dedinho mínimo do seu pé tem qualquer marca de normalidade. Não adianta fugir do psiquiatra, ele vai te achar!

MODO DE USAR
- Vamos, devagar, calma, você consegue! O modo de usar é bem simples, você que é cabeça oca! É só enfiar esse comprimido goela abaixo para ver se você para de dizer que a sua cabeça está sempre tão sobrecarregada de pensamentos.
- Não é esse o efeito que você queria? Modificar sua percepção de dor e perigo. Porque... Fala sério, essa angústia constante com a vida é, no mínimo, decepcionante!
- O modo de usar é tomar e sacudir. Sacudir a vida, sacudir os pensamentos, sacudir a “poeira e dar a volta por cima”.

A DOSE
- A dose é a dose habitual de toma vergonha na cara.  Porque você precisa modificar sua visão de mundo. Essa mania de perseguição já deu, né? O mundo não gira em torno de você. As pessoas não querem, prioritariamente, te fragmentar. É só o seu excesso de ansiedade tirando toda a sua capacidade de julgar de forma mais adequada.
- Sua mente precisa desacelerar, precisa sentir esse barato de um pensamento só, de cada vez, nada mais daquelas trilhões de questões que invadem a sua mente a todo minuto. Depois de experimentar (venhaaaa, proveeeee!), você não vai querer outra vida!

SUSPENSÃO DO TRATAMENTO
- Como eu sou um Rivotril® cabeça, eu sempre falo nesse tom relaxado, irônico, marca da minha eficácia no tratamento, pois modifico a percepção da dor e do perigo, relativizando-os. Aí é que é o perigo e, nesse momento, preciso usar meu tom mais sério.
- O Rivotril® é um medicamento que por agir direto no Sistema Nervoso Central (SNC) tem um grande potencial em causar dependência e uso indevido. Por isso, têm-se dois tipos de visões, diametralmente opostas: aqueles que acham que eu sou um medicamento para maluco (geralmente é o senso comum que pensa assim). A outra visão é a visão de alguns profissionais da área de saúde que acham que a terra foi marcada por um grande evento, no qual houve uma divisão histórica: a.R. e d.R., ou seja, antes e depois do Rivotril®.
- Mas não! Não é verdade que todos precisam de mim e não é verdade que só os loucos usam psicotrópicos. Por exemplo, você meu futuro paciente precisa de um Up na vida e para isso é medicação na veia, ops! Na veia não, na boca com um copo d’água.
- Então, depois de você se convencer da dura realidade de que você está precisando de medicação. Aí então, você entrará no tratamento e para sair é descontinuar, mas você não quer mais, né? Se viciou!
- Para entrar no tratamento eu aconselho uma junta médica, porque psiquiatra olhar para você, consultar a bolinha de cristal e receitar, já deu, né? Só sabendo os pormenores da vida de alguém para receitar com segurança um remédio tão sério (nem tão sério assim kkkkkkk) como eu! Portanto, para sair, junta médica, de novo, e acompanhamento psicológico para te ajudar na caminhada da descontinuação. E é isso... A gente se vê depois de sua ida ao médico!
Margareth Sales

domingo, 14 de abril de 2013

Identidade


O que te define? O que você é no meio de tantas vozes que tem por hábito te nomear com adjetivos que nem você mesmo sabe se é real ou fruto de algum mecanismo de transferência?

Há fases que são especificamente momento de auto-definição. Momentos de reconhecimento. Identidade é o que nos norteia, aqueles que não reconhecem sua identidade ainda vagueiam vazios pela vida. É natural que na mais tenra idade a identidade ainda esteja sendo construída através do contato com o outro, por meio dos embates que nos forjam. Mas um adulto sem identidade? Isso não é muito saudável, pois a falta dessa pressupõe ser levado atrás da multidão, tendo como fim último a supressão completa ou parcial dos próprios desejos e decisões.

A identidade nos liberta, aos nossos anseios e aos caminhos que queremos trilhar, assim não somos mais levados pela vontade de outros que muitas vezes não se coaduna com nossas verdades mais internas.

Em um sentido mais amplo a sociedade tenta impor à todos um único tipo de identidade, aquela chamada “normal”. Antes de tudo é necessário esclarecer o já incessantemente dito: NÃO EXISTE NORMALIDADE! Por outro lado, nem essa personalidade “normal” imposta é de verdade “normal”...

Haja vista que para tal “normalidade” pressupõe a ausência de angústia, um bom exemplo desse modelo de identidade pode ser resumido em uma frase que ouvi muito no carnaval: “nada me incomoda”! Como assim? Se nada incomoda essa pessoa já está há muito distante de qualquer forma de contato com o real, ou seja, essa pessoa surtou há muito tempo e vive no mundo do Faz de Conta e não percebeu ainda.

A pressão da sociedade é em não querer enxergar e te impedir de manifestar personalidade conflitante, pois isso é um reflexo bem ampliado na cara de uma sociedade que usa o slogan do “nada me incomoda” só para fugir de si mesmos. Fugindo de si mesmo voltamos ao velho círculo vicioso: a falta de identidade que só provoca vazios.

Identidade é então, saber-se portador de angústias, de altos e baixos. Saber com certeza absoluta que, sim, muitas coisas te aborrecem, mas que também você sabe enumerar e não são poucas, todas aquelas que agradam.

Concluindo, com um exemplo: ter identidade é saber que não te incomoda comer arroz requentado de uma semana, mesmo que seu amigo também reconheça em sua própria identidade que arroz requentado é intragável, cada um na sua, respeitando a escolha do outro. Identidade é ciência profunda e real de quem se é com todas as sua nuances, tanto as boas quanto as socialmente desagradáveis, mas todas são você!
Margareth Sales

quinta-feira, 7 de março de 2013

Classificados



Para comemorar o dia da mulher: o último texto já publicado e que fecha o período de férias. Abril volto com tudo!


Vende-se um coração: - 1 Quarto, habitado quase 40 anos pela mesma dona, a única vez em que o coração não dormiu sozinho naquele quarto solitário, o príncipe que dormiu de conchinha ali, virou abóbora e desapareceu correndo sem deixar o último beijo de despedida. Mas como essa crônica é as avessas, de trás para frente ou de dentro para fora é bem capaz de que se houvesse o beijo de despedida ao invés da princesa acordar, ela poderia acabar é dormindo para sempre nos braços gélidos do amigo, não muito íntimo de Morpheu: a morte!


- 1 Sala, não muito espaçosa, mas como o coração que habita nessa sala é enorme: sempre cabe mais um! A sala também tem uma história, eu acho que esse coração se encontra triste?! Será?! Mas como vender um coração triste? Coração é lugar de aconchego, de doação, de compartilhar. O coração falou no meu ouvido agora: essa sala também foi ocupada a bem pouco tempo e sabe quem fazia companhia, nessa sala, naquela poltrona azul à dona do coração? Era a esperança! A esperança veio feliz, vestida dela mesma e namorou naquela poltrona e foi feliz ali com beijinhos, abraços e carinhos impublicáveis nesse horário e nessa sala, ops: olha as crianças ai assistindo a TV!

- 1 cozinha, uma cozinha minúscula que mal cabem duas pessoas ao mesmo tempo nas cadeiras da mesa da cozinha! Eita! Que estou achando que esse coração é dos Sete Anões, tudo tão pequenino. Não! De repente o coração é da Branca de Neve, afinal ela é mais bonita do que o bando de marmanjão anão. Mas vamos voltar aos classificados: nessa cozinha o coração alimentava a esperança, aquela que estava na sala e que depois de dormir no quarto de conchinha acabou virando abóbora e desapareceu na vida. Ali o coração tentou alimentar a esperança de amor para que ficasse bem forte e pudesse crescer saudável. Não funcionou! Acho que o coração estava duro e não forneceu os alimentos certo, ou não?! Vai saber, mistérios da vida.

- 1 banheiro: Shiii... O coração me sussurrou algo novo. Ué? Quer vender-se e não quer vender o banheiro, como? Uma casa não se vende sem banheiros? Porque coração? Ah! Tá, entendi. Deixa eu explicar para os leitores: o coração disse que foi no banheiro, que ele foi agarrado de surpresa, pela esperança e recebeu seu primeiro beijo! Mas coração que coisa mais tosca, o primeiro beijo ser no banheiro. Ah! tá, entendi, deixa eu, de novo, explicar para os leitores, o coração disse que é assim mesmo, que a esperança aparece de surpresa, beija nos lugares mais inusitados, se nutre, fica forte e se transforma em amor...

Póooiiimmm (barulho de coração murchando), bem para esse coração aqui não funcionou e ele se encontra à venda, o preço é a fé, se alguém tiver fé para dar, o coração se vende para a fé. Dentro ou misturada com a fé, o coração vai atrás da esperança para que essa, finalmente, se transforme em amor... É tudo uma questão de TEMPO! Aliás o tempo acabou de se colocar a venda também, esse espera ganhar mais tempo, para ter tempo de fazer o tempo sobrar!!!!
FUI!!!!
Margareth Sales




sábado, 2 de fevereiro de 2013

Historinha para boi dormir


Continuando nos meus meses de férias, mas um texto que curtir bastante, principalmente porque eu pude escrever algo que a mim me faz rir.

Depois desse título a vaca foi definitivamente para o brejo. Não que a vaca quisesse caminhar por caminhos tão ermos, mas quando se está fadado a ir para o brejo, para o brejo se irá. Na realidade nossa querida vaquinha sonhou com coisas melhores, mas a vida é isso ai, uma sucessão de respostas para perguntas que não fizemos.
 
Bom seria que a vaca pudesse escolher determinar se o brejo era o local mais apropriado a sua cútis tão delicada. Vê lá se brejo é o local apropriado para uma vaca de família, marcada no melhor estilo do ferro quente. Afinal, vaca que mamãe beijou sapo qualquer do brejo não põe a mão.
 
Mas lá se foi solitária fazendo o melhor que podia de sua triste sina. Mas eu hein? Tadinha da pobre vaca, sempre lutadora buscando seu lugar ao sol e foi lhe sobrevir destino tão trágico. No entanto, resignada caminhou a passos firmes para o seu brejo ciente de que algo lhe tiraria dessa solidão desumana ou desvaca?
 
Mas na cidadezinha brejeira onde a vaca morava ninguém acreditou que tal ocorrido fosse verdade. Até porque todos acreditavam que dentro daquela cidade a única com possibilidades de ascensão seria a vaca. Mas destino traçado destino cumprido e a vaca foi e provavelmente não voltaria mais, deixando para trás corações suspirantes que nem ela mesma percebera em algum momento.
 
Por isso que se diz que não podemos perder tempo e devemos dizer para que no futuro o que deveria ter sido dito, não fique sem ser dito para que não se transforme o dito pelo não-dito e dizendo em outras palavras... FERROU!  Caminhante solitária dessas grandes teias que envolvem a vida de todos não percebeu que podia ser menos solitária porque tinha muitos boizinhos querendo enlaçar a pobre vaquinha desavisada. É muito amor na veia.
 
Bem, eu acho mesmo que não tem jeito, a vaca não tem sorte e já passa das 4 da manhã, tá na hora de naninha, ir para cama que a noite não é criança nada, é só a classe dominante mais uma vez te enganando. E claro, amanhã é domingo e se ele pede cachimbo vou é tomar Nescau ou Toddy (comercial não pago, claro) para na mesma veia do amor que os boizinhos cultivaram pela vaca eu possa ter energia circulando nas mesmas veias e na massa cinzenta para não enrolar meu público com historinhas para boi dormir.
Margareth Sales

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Fúria de Titãs


Janeiro mês de férias! Até o mês de Março estarei repostando o três melhores texto do blog. Boas Férias!

Conta-se a lenda que os deuses viviam na mais harmoniosa paz, momentos de ataraxia (N.A: Ataraxia para a filosofia é impertubabilidade, tipo uma ausência de desejo). Mas havia um motivo para se manter esse ambiente: o medo, era ele que estava por trás de tal atitude, mas na realidade, o medo se encontra por trás das mais diversas atitudes do ser humano, mesmo que supostamente esses pareçam “deuses”. 

E o maior medo desses deuses era o poder sensual de criatura tão linda, tão macia, tão menina e tão mulher: as deusas, essas o assustavam demais, então em cúpula, eles decidiram, pelo poder da língua oral afastar-se do poder dessa espécie tão adorável. E como as deusas se encontravam criando, se doando em favor da natureza, cuidando, elas nem perceberam quando os homens se uniram e criaram essa nova lei, quando eles saíram por ai dizendo como eles achavam que deveria ser e tornando real a palavra falada.
 
Assim, por muito tempo, tempo não contado, porque os deuses se encontram fora do tempo, até o momento que uma das irmãs de Diana, uma deusa, extremamente, formosa e questionadora começou a se insurgir em seus pensamentos contra todas as leis criadas pelo universo masculino. Questionando e pesquisando, Ana acabou por descobrir uma nova raça que não tinha consciência existir: a raça humana, a partir de então, a deusa começa a ausentar-se da morada dos deuses e passou a visitar incessantemente a raça humana, isso a fez angustiar-se, um sentimento novo, que lhe causava dor, mas que depois de ter passado por ele não havia mais como recuar. E esse sentimento que, por um lado, tinha essa característica angustiante, por outro lhe despertou uma força interior, um poder, que até o maior deus que ela conhecera nunca pareceu possuir.
 
Levou muito tempo para que ela conseguisse concatenar suas idéias, suas emoções e equilibrá-las, diante dos deuses continuava, aparentemente, sustentando a ataraxia. Mas por dentro tudo lhe dóia, tudo lhe angustiava e ela desejava algo que não saberia dizer o que era. E sem parar, pesquisava, no livro dos deuses, pesquisava na vida dos humanos, buscando algo que lhe trouxesse paz.
 
Aprendeu com os homens o sentido de tempo, e amaldiçôou-se por viver na eternidade, queria aquela sensação de morte, descobriu que essa sim, teria chances de ser ausência de desejos e não a supressão forçada desses. Pesquisou, então, nesse sentido: como morrer, pois não suportava mais viver desejando algo que não tinha, muito menos que não conhecia. Até que um dia, no conceito terreno, conheceu um agricultor, um homem, literalmente, da terra, nada conhecia dos deuses, conhecia da vida e não sabia ao ser apresentada a Ana que ela era uma deusa, mas intuía, como tudo em sua vida, sem ter conhecimento o suficiente para encadear ideias, vivia muito do instinto, mas do que de seu raciocínio.
 
Mas a deusa ao conhecer aquele ser humano acabou por o desprezar, porque dentro de seu coração, aquele ser era mais do que todos que conheceu na vida, fraco! Uma pessoa que se dizia ser o que não era, uma pessoa por demais inconsciente de si mesmo. Mas como que por um milagre, aquele ser inconsciente de si, tomou conhecimento de Ana, penetrou onde nenhum deus jamais estivera e percebeu o que a deusa desejava e sua angústia, pois como homem sabia que tinha o que ela queria e queria dar-lhe e também ter aquela mulher fabulosa e se fundir, ser parte dela e fazê-la parte dele.
 
Começa assim, uma perseguição implacável, onde Zumbi, o homem, decidiu tomar a deusa para si. Quando Ana percebeu o que ocorria, num surto de consciência percebeu também que, aquele homem fraco, era mais forte do que ela e tinha algo que ela não possuía e isso iria destruí-la, era o que achava, mas não o que era, o que ele possuía só iria mudá-la para sempre!
 
Cansada do tédio que vivia e com um montão de deuses que ela classificou como semi-deuses, ou na linguagem humana, bobos da corte, percebeu que queria ser surpreendida por algo novo e conquistada. Só que imaginava que tal como os semi-deuses, bobos da corte que conhecia, qualquer um só poderia ser alvo de pseudo-animações, nunca algo que a fizesse gozar de verdade. Foi diante dessa condição que percebeu que dentro de si havia mais que uma deusa, mas uma mulher humana, que ansiava por um homem humano, não um deus-bobo-da-corte!
 
Foi num surto, num pulo, numa decisão, sem decisão, que resolveu ir até Zumbi e deixá-lo chegar até ela, mesmo sem acreditar no poder do fraco humano, que nada sabia de si. Ela foi até ele e em sua frente, deixou-o aproximar-se... Ele veio sensual demais, ele estava no banho e veio enrolado em uma toalha vermelha e pela primeira vez ela despertou a consciência e viu que queria aquele homem. Mesmo com toda a falta de leitura de substância, de não possuir os livros dos deuses e desconhecido de si mesmo, ele a conhecia e ele a via! E era isso que ela queria, ser vista, era esse o seu desejo, ser vista no profundo, ele veio devagar até ela e a abraçou profundamente e ela caiu... Estrondou a casa do agricultor, os deuses se abalaram e perceberam que algo ocorreu, perceberam que alguém não estava mais entre eles, mas não sabia quem era, qual era o sexo, se era um homem ou uma mulher, mas apostaram na inquisição e sairam buscando quem ousaria tão alto. Porém, o que eles não sabiam é que o amor tem a característica de se esconder para o mundo, ninguém nunca iria saber, só os dois, o que estava acontecendo ou o que aconteceria, naquela casa!
 
Ela se ligou a ele, se tornando sua mulher e ele seu homem, a criação foi recriada naquele momento mágico. Novamente, uma conexão eterna tinha sido feita e isso era mais forte do que a morte e levantaria guerras, pela simples inveja de deuses em relação aos homens, buscando um desejo que está no profundo da alma de qualquer um, um desejo que todos têm, mas que nem todos conseguem satisfazê-lo.
 
Agora Ana era parte dos segredos de Zumbi e ele dela e assim, de olhos abertos, ela viu coisas novas e inexplicáveis e foi transportada para um novo nível de conhecimento e nessa mistura deusa-mulher estava mais forte do que nunca. Não sabia que tinha ficado mais forte para enfrentar o que vinha não só contra ela, mas contra os dois, porque os dois agora eram um só!
 
Foi numa tarde de verão, porque agora passava todas as suas tardes, junto ao seu amor, que viu algo que não imaginava, algo que a deixou perplexa e atônita, um outro deus havia descido e estava “ensinando” Zumbi. Seus olhos se iluminaram mais ainda... Quer dizer, então, que a falta de conhecimento que seu amor tinha era porque ele estava sendo manipulado por um discurso retrógrado e maniqueísta para não conseguir pensar por si só? Mas porque um deus iria desejar tal situação? Não entendia... Assim, escondida se pôs a averigar a realidade dos fatos.
 
Mas não foi dessa forma que acabou por descobrir o que estava ocorrendo de verdade. Foi um outro dia, onde o deus numa conversa com Zumbi, intuitivamente, percebeu que era ele quem estava com uma deusa e dominado pelo ciúme, pela inveja daquele ser humano que nada era, mas que foi capaz de conquistar os desejos de uma deusa, decidiu descobrir quem ela era e tomá-la para si.
 
Em sua investigação acabou chegando em Ana e, resolveu, tomá-la a força, porque ele podia, Zumbi, não! Ele era deus, Zumbi uma criatura insignificante que ele sempre tratava pelo diminutivo: zumbizinho para mostrar a diferença que havia entre um e outro e fingia que iria ajudá-lo a chegar ao nível de deus, mas era mentira, uma mentira dominante que só reforçava o poder que já possuiam os deuses.
 
Foi tentando tomá-la a força que acabou havendo uma grande batalha, uma verdadeira fúria de Titãs, dois grandes deuses lutando através do poder que só a palavra tem, para sobrejugar o outro. O que o deus-bobo-da-corte não percebia era os grandes medos que ele tinha e, escondedo-os tentava subjugar os outros pelo seu poder discursivo, o que muita das vezes conseguia, mas não ao dar de frente com uma verdadeira Titã. Alguém que além do domínio da palavra, era real, não estava se falsificando, nem debaixo de falsas premissas de si mesma.
 
Sim, o deus tinha muito medo dessa mulher que se conhecia e que por isso, conseguia trabalhar com a palavra verdadeira e    ao  trabalhar com a verdade, tinha em si condições de fazer aliados. A briga foi tão voraz e por não conseguir submetê-la, intentou, então, manipular a cabeça de Zumbi, usando preceito de deuses para tornar verdadeiras suas assertivas, lêdo engano... O homem estava dominado pela formosura da mulher, por suas curvas e em suas curvas, até mesmo dos pés dela num lindo sapato, ele era mais homem e se tornava também deus.
 
A conclusão disso tudo, é que o deus teve que se deixar vencer, pois não poderia vencer a união da deusa com o homem. E mais do que isso, através do poder da palavra, poderia vir a tona quem esse deus era de verdade, em seu íntimo, e temendo pelo seu futuro como deus, ele teve que calar-se e deixar o casal em paz, vivendo humanamente o que estava reservado a eles viver ou o que eles poderiam viver de acordo com suas próprias escolhas, baseadas no livre arbitrio. Mas tanto faz, se uma ou outra conclusão, o que estava acontecendo ia continuar acontecendo, muito mais em função da expressão soberana da vida do que de maniqueísmos pré-existentes!
Margareth Sales