terça-feira, 12 de setembro de 2023

CARTA AO BOLSA FAMÍLIA


 (Baseado em fatos reais)

Macabéa é unipessoal e precisou recadastrar o seu bolsa família, mesmo que o tenha feito há dois dias atrás. A iniciativa de passar um pente fino sob o unipessoal buscando revelar as fraudes era, totalmente, válida. O que Macabéa não percebia era a falta de dignidade ao qual foi exposta. A logística, da forma como foi feita era brutal! Filas quilométricas. No lugar do Assistente Social, quem preencheu a ficha, a mesma de sempre, foi um atendente, sem nenhuma empatia com o perfil de vulnerabilidade da população. Havia eficiência em pelo menos dois funcionários, uma das quais era Assistente Social.

Tudo pareceu normal para nossa personagem, ao entrar era perguntada a idade e, de acordo com a resposta, recebia um cartãozinho vermelho ou amarelo. Recebeu o vermelho e foi para uma espécie de “subsolo” lotada de pessoas famintas (literalmente), pois elas contavam isso. Diante desse cenário de “guerra”, sentiu uma coisa estranha, lembraria do Holocausto se tivesse seguido com a educação formal.

Tirando as devidas proporções, porque, obviamente, evocar o holocausto nessa situação sombria era natural ao nível do mal-estar, porém, há que se evidenciar as diferenças. De qualquer forma, o ambiente estava muito aquém da dignidade humana.

Quantas Macabéas no local e mesmo assim, foram elas que forneceram resposta para a logística absurda a que estavam submetidas: mais funcionários (óbvio) ou o atendimento na residência. A Assistência Social têm essa função, por que não usá-la? Indo a residência ficaria patente a fraude, daria para ver o quadro de unipessoalidade ou a mentira. 

Voltando ao sentimento violento que relembrava um holocausto: havia medo naquelas pessoas (Macabéas). Uma insegurança geral, as mentiras que assolam esse país: “Disseram que estamos aqui porque vão baixar os nossos rendimentos para 400 reais”. Era mentira, mas a personagem não sabia. Teve relatos bons: “Com a baixa dos preços, pude comprar, pela primeira vez em muito tempo, carne”.

Parte daquelas pessoas já tinham sido cortadas do programa, mais relatos: a usuária pagava 350 reais de aluguel e o que sobra, come. Como? A tristeza daquele ser humano em pedir para a dona da casa em que mora, segurar o débito, pois ela estava tentando reaver seu bolsa família. É super válido descobrir a fraude, mas penalizar quem realmente precisa é brutal!

Uma infinidade de relatos de pessoas cortadas e desesperadas, como se manter? Quando seriam reativadas, novamente? Macabéa estava apavorada. Como pagaria as contas? Como comeria? E seu cachorro-quente com coca-cola? Nada indicava que haveria suspensão, pois não havia fraude em seu caso, mas a mentira a dominou e perguntando a atendente, ela afirmou que aconteceria. Não aconteceu e quinze dias depois o dinheiro estava na conta, fielmente. A funcionária? Péssima, como tantos desviados de sua possibilidade de exercer algo que seja compatível com seu perfil. Obviamente, também deveria ter sido demitida e em seu lugar poderia entrar essa Macabéa que ao contrário da escrita por Clarice Lispector era uma excelente digitadora e, ainda, muito empática.

Não é possível alarmar uma população carente e vulnerável, não só financeiramente, mas socialmente, psicologicamente e outros “mentes”. É preciso responsabilidade social para que não se crie mais prisões mentais do que as que já existem na cabeça de uma pessoa vulnerável..

Margareth Sales

terça-feira, 15 de agosto de 2023

DIA DOS PAIS


Nunca foi confortável! Um dia que éramos obrigados a mostrar afeto por uma pessoa que só sabia gritar e culpar. Tudo era responsabilidade do outro, todos os problemas e dores nunca eram culpa de si mesmo, mas dessa alteridade que sempre cobrava, que sempre pedia posições. A obrigação de suspender o ritmo da família para simular um afeto que não existia, pois do contrário, seria a exposição brutal da fratura. Exposta desde sempre, mas tacitamente negada para nunca entrar em contato com os verdadeiros sentimentos. Esses que são capazes de dissociar, de provocar uma ruptura no self ao se ver, de verdade. 

Quando a comemoração do dia dos pais cessara, há 21 anos atrás, foi um alívio. Não mais a encenação falaciosa de uma situação que nunca foi real, de um afeto que foi dilapidado pelos maus-tratos e pelas gritarias incessantes... Uma família com quadro sério de violência familiar, sob a égide do psicológico... 

Nesse último Dia dos Pais, como em alguns, no qual a maioria expõe afeto como posse, uma espécie de “eu tenho você não tem!” brutal, pois que nem todos tem, realmente. E, também, muitos que não tem perceberam de fato uma liberdade da violência e que, realística e secamente, foi a melhor coisa que lhes aconteceram. E nesse sentido, estes não fazem parte da festa.

E tudo bem! Pois a maturidade predispõe saber que não somos convidados para todas, mesmo aquelas de caráter universal. O problema é quando a festa invade suas narinas... O que nem sempre é preocupante, porque depois de uma boa refeição, ou mesmo, fazer um churrascão só para você e se trancar com seus filmes, seu videogame do final de semana. O amor pessoal tem essa característica de te fazer ser capaz de curtir só, consigo mesma! Tudo ok, mas citei as narinas... se o churrasco do seu vizinho não invadisse as suas narinas que não tinha o que comer nesse domingo e sabia que a segunda e a terça ainda seriam piores... 

A partir desse momento, que seu pensamento está confuso, por falta de proteínas; que é violento assistir um filme, pois eles comem o tempo todo, como que jogando na sua cara que você não tem, mas precisa... Você pagou as contas, mas não sobrou para comer... Então, você tem a luz elétrica para assistir qualquer filme, pois transvestindo-se de Jack Sparrow você tem acesso a todo filme que deseja assistir. Tem o jogo de videogame que você gosta, pois naquele momento que entrou mais dinheiro, que deu para pagar as contas e comer, você pode se dar ao direito de ter lazer e comprou seu joguinho: “A gente não que só comida, a gente que comida, diversão e água...” 

Você tenta esquecer que tem um buraco no estômago, divertindo-se, você esquece que ao levantar da cadeira vai se sentir tonto, afinal, já está na meia idade e está com fome. Por mais que ninguém veja, seu corpo treme por dentro e você sente isso, como um recado: estou com fome! E a noite rola de fome na cama... 

No final, você torce que o Dia dos Pais acabe o mais rápido possível para parar de sentir o odor do churrasco do vizinho que abate seu ânimo, mas sendo brasileira, você encontra forças para saber que o humor está deprimido (é muita fome), mas você vai tentar curtir o fim de semana, sem nada no estômago, porém alimentando o desejo com um bom jogo ou um filme confortável, de preferência que não apareça mesas fartas... 

Margareth Sales

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Crítica da Música Déjà Vu, da Pitty



Entendo a música como uma crise de maturidade, pois a mesma pressupõe saber lidar com as angústias que são inevitáveis, não mergulhando nestas! 

Nenhuma verdade me machuca 

Quando avançamos em maturidade emocional estamos prontos a aceitar um contingente muito maior de verdades sem a desestruturação. Nesse sentido, encaixam-se os motivos que não conseguem mais corroer... 

Nenhum motivo me corrói 

Até se eu ficar só na vontade, já não dói 

Temperança, você consegue equilibrar e controlar os desejos. 

Nenhuma doutrina me convence 

Consciência de que Doutrina não é A verdade, mas uma das diversas formas de se relacionar com o todo. 

Nenhuma resposta me satisfaz 

As duas frases se correlacionam tanto doutrina quanto respostas dependem da pessoa, não são normas inquestionáveis. 

Nem mesmo o tédio me surpreende mais 

Tédio que faz parte da vida. 

Mas eu sinto que eu 'to viva 

A cada banho de chuva que chega molhando meu corpo nu 

Renovo, esperança, apesar das dores e angústias, não é só isso! 

Nenhum sofrimento me comove 

Ontologicamente vivemos TODOS os sofrimentos em nossa própria carne. Não desmerecendo situações profundamente trágicas e fora de todo o universo de possibilidade em respirar... (ser), mas já vivemos tudo, separadamente! 

Nenhum programa me distrai 

Parece ser um reconhecimento mais visceral da miséria humana, até porque existe uma ambiguidade, pois a chuva distraí e ela se sente viva. 

Eu ouvi promessas e isso não me atrai 

Promessa não são ações. 

E não há razão que me governe 

Nenhuma lei prá me guiar 

Sem razão e sem lei significam que há possibilidades para além da norma, das regras, porque estas podem ser engessantes. 

Eu 'to exatamente aonde eu queria estar 

Uma escolha, uma necessidade real de ser como é, apesar de... e aí retorna ao sentimento de estar vida. Tal sobriedade ocorreu porque...

A minha alma nem me lembro mais 

Em que esquina se perdeu 

Ou em que mundo se enfiou 

Mas já faz algum tempo 

Tal perda foi no passado! 

Já faz algum tempo 

Mas eu não tenho pressa 

Finalizando com um procura por essa alma, mas sem pressa... Um encontro cada vez maior consigo mesma. Um respeito aos próprios processos.


Margareth Sales

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Poetar


 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Relações Abusivas


 

Desde 1995 estive com você! Mesmo que você sempre se fechasse para mim, do nada. Praticando operações ilegais todo o tempo. Tirava o dinheiro da minha bolsa, justificando que nossa relação iria melhorar! Não passava muito tempo para que todo o conflito de antes voltasse, novamente, a acontecer. E eu destruindo o meu psicológico, torcendo, que não se travasse para mim, que não se corrompesse, deixando muito claro que você não foi estável, mas eu acreditava... Já são 26 anos nessa relação e aos poucos foi piorando, enquanto você envelhecia, mesmo se atualizando, não resolvia, pois diversos novos problemas foram surgindo!

Comecei a flertar com outro, mas a Síndrome de Estocolmo me fazia voltar para você. Aquele famoso costume que não permitia que experimentasse, de verdade, o novo!Nas primeiras semanas foi difícil, não conseguia parar de pensar como era mais fácil com você, pois já te conhecia, passamos muitos anos trabalhando juntos. Bem ao contrário do que vivo agora, no qual eu começa a conhecer essa minha nova possibilidade, parece que meu universo foi virado de ponta à cabeça e tenho que reaprender tudo novamente... Os novos erros me angustiavam, pois davam a falsa impressão de que seria muito difícil trabalhar com estes, mas tem sido o oposto, cada novo erro é consertado na manhã seguinte e não volta mais... Dessa vez, todos os novos conflitos são oportunidade de mudança e crescimento para um comportamento mais robusto e seguro.

Eu me sentia estranha, principalmente quando sabiam que não estava mais com você. Há valorização por uma aparente casca de eficiência quando no fundo só existe instabilidade, mas as pessoas tendem a comprar o que todos compram. Portanto, é difícil fazer frente aquilo que a opinião popular atesta como imprescindível. Afinal, é uma nova linguagem em detrimento à antiga que dominávamos tão bem!

Me senti insegura, parecia um erro, como abandonar quando foram mais de duas décadas andando juntos? Como deixar tudo para trás? Como não vestir a carapaça de sequelada mentalmente por me afastar desse que é tão valorizado pelo mercado?!

Mesmo com todo o revés, soube que não havia mais chance de volta. Você tirou o meu caçula e até agora tenho lutado ininterruptamente para reavê-lo, penso até em dar-lhe um irmãozinho, mas não arrisco enquanto toda essa transição não estiver completa.

Acredito que depois de ter me feito temer só de estar perto de você, meu coração acelerar, pois a qualquer momento eu poderia ter um crash total com sua constante instabilidade, é preciso dizer adeus Windows, estou tentando um novo relacionamento com o Linux que é aberto e aceita desenvolvimento pessoal, não tem domínio, é livre! Mesmo, claramente, não sendo tão fácil me afastar de você, principalmente porque geramos filhos: o CorelDraw, o Photoshop e o fofo que só vive jogando, o The Sims!

Entretanto, é em nome desses filhos que tenho feito todo o meu possível para adaptá-los a este novo universo expandido que aceita todos as contribuições possíveis quando visam ao aperfeiçoamento. Em nada parecido com você que se fecha e se torna inacessível a comunidade. Só posso finalizar apresentando meu luto e ansiar para que meu relacionamento com o Linux sirva de exemplo para que mais pessoas possam descobrir que existem novas possibilidades se o olhar buscar fora das janelas!

Margareth Sales

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Profissão Escritora


Muita coisa antiga tem voltado a minha memória! Acredito que por ser um momento, no qual a terapia de presencial passou a ser por telefone, acabando por se tornar uma espécie de divã mais efetivo e rápido! Diante disso, uma memória que me veio agora foi a de que desde 1983, com apenas 13 anos de idade, a Secretaria de Estado de Educação validou o meu perfil como escritora. Estava juntando esses dados na memória, pois estou imersa na escrita sobre a escrita.

Portanto, para mim que estou há muito tempo perseguindo essa carreira fica muito real todas as fraturas, os maus entendidos que um profissional da área de escrita atravessa. Já vi muita inveja e mesquinharia. Praticamente, não vi o que muitas escritoras viram: o domínio do masculino sobre a área, mas sei que é real, nunca foi uma questão para mim! O que mais me angustiava, no início, era reconhecer que a profissão precisa de validação de fora para ser exercida! Só que os tempos mudaram...

Entretanto, por mais que seja arcaico o pensamento, ainda vemos gente que se vale dele para destituir, assim surgem frases como: "Mas você não é escritora, você não foi publicada!". Já ouvi muito isso, mesmo sendo publicada pela primeira vez aos 13 anos de idade e aos 18 trabalhar dois anos como colunista de um jornal, sendo paga para tal! Contudo, isso está longe de ser um gatilho para mim, é muita terapia, para realmente não esperar validação do outro. Sou perfeitamente capaz de me validar, pois já é tempo de entender o que a constituição de 1988 já tinha previsto, ou seja, é no fazer que a pessoa se torna profissional, salvo algumas raras exceções que precisam oficialmente de diploma como a medicina, por exemplo.

Mas o que, realmente, me dói? São pessoas que postam em seu facebook que se você está passando fome, por favor, peça ajuda, pois eles podem dividir o pouco que tem?! Whattt??? Levar a questão da falta de emprego formal para o domínio da doação, que pressupõe esmola, só contribui com a atual gestão presidencial. Isso porque, a arte como qualquer forma de trabalho precisa ser valorizada, mas não com a falsa premissa de empreendedorismo, não é empreendedor a partir do momento que se vende o almoço para pagar a janta! Haja vista, que para a real acepção de empreendedorismo é preciso capital de giro. E individar-se no cartão para comprar uma moto para tornar-se entregador para as grandes empresas de consumo digital não é capital de giro é individamento, sem retornos!

Assim, não ofereça dividir o seu prato de comida: compre daquela pessoa, compre o que ela vende. Sem julgamentos... Retornando, a questão autoria escritural, o mercado literário é tão competitivo que pessoas te destratam porque você escolheu essa profissão, através da frase já dita anteriormente ou mesmo revirando os olhos para a sua obra. Uma fábula antiga já contou que as uvas do vizinho estão verdes, portanto, não serve para você, não é, coleguinha?!
😛
Há que se entender que invalidar o perfil profissional do outro, principalmente, no que tange a escrita é uma prática que tem funcionado até os dias de hoje, mas que expõe aquele que usa de tal artifício. Pessoas que costumam colaborar com a arte, são sempre mais bem vistas no meio social do que aqueles que reviram os olhos e diz que o fruto está verde, ainda!

Ou mesmo, aqueles que tendo optado pela escrita como uma atividade secundária com a qual não buscam retorno financeiro e julgam quem têm a ousadia de confrontar as normas pré-estabelecidas, ou seja, aqueles que pensam fora da caixinha! Isso também fica feio, pois também já é do domínio popular saber que todo aquele que aponta o dedo à alteridade, recebe como retorno quatro dedos apontando de volta. Não seria mais plausível assumir que se jogar na vida não é o seu perfil, pois o medo é maior?! Porque por outro lado, aquele que se joga também tem seu próprio revés, por vezes, não conseguindo nem se alimentar direito. Não foi isso que a leitura do Quarto de Despejo nos ensinou? Que uma profissional gabaritada como Carolina Maria de Jesus passava fome em função da inveja e mesquinharia do vizinho! É mister construir uma nova sociedade, mais empática, mais inteira, com mais possibilidades de curtir um ócio criativo por meio da arte, sendo menos workaholic.

Margareth Sales

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Setembro Amarelo

 

Vamos falar dessa máxima, antiga, redutora e arcaica de que alguns não trabalham... Passei minha maturidade, criando um perfil trabalhista para mim, a primeira razão: meu primeiro emprego fixo foi no CIEP, com crianças, no meio de uma depressão intensa, sem medicação, sem saber que, aliado a depressão, eu tinha Transtorno de Ansiedade Generalizada. Eu acordava 6 horas da manhã para estar no CIEP às 8 e eu sou noturna (isso é um perfil biológico - já tive médico me empurrando remédio goela à baixo para eu conseguir acordar cedo, não adiantou só piorou meu quadro clínico). Eu chegava no Ciep, antes de pegar os alunos na fila, e ia para o banheiro chorar. Eu chorava em sala de aula, eu não sabia fazer os alunos me respeitarem, como? Desiquilibrada do jeito que estava. Eu vivia angustiada, com dor emocional e não conseguia nem ficar acordada para ter lazer com o dinheiro fixo que ganhava. Esse dinheiro não dava para nada, obviamente que com salário fixo, eu poderia ter saído de casa, mas não havia como eu entender que essa possibilidade existia, pois a dor era maior do que o raciocínio lógico. Tentei através de psiquiatra, fornecido pelo estado, me encostar, claro que eu era muito nova (23 anos), mas qualquer profissional competente saberia que não tinha condições laborais, mas não, o idiota disse que eu estava bem! Eu era suicida (bem, pelo que sei para quem tem esse perfil não existe cura, nunca li, nunca aprendi com os profissionais da área de saúde mental que há cura!) como eu estava bem? Eu chorava com meus amigos da vizinhança, eu chorava 24 horas, eu sentia dor emocional, eu sentia medo da vida, eu já tive ocasiões de pedir as pessoas que me levassem até o ponto do ônibus, pois tinha medo de ir até lá, sentindo que um buraco se abria à minha frente e me devorava! Eu passei quase 50 anos com medo da minha mãe, do meu irmão, do meu pai, de alguns primos evangélicos...

Eu estou falando sobre trabalho ou sobre Setembro Amarelo? Os dois? O pior do sentimento de depressão aliado à ansiedade é não conseguir deter o corpo! Sabe aquelas cenas brutais de corpo caindo no chão depois de uma experiência de trauma? Sim, é assim que pessoas com dores emocionais se sentem. O corpo não contém, o corpo parece querer explodir, alguns depressivos conseguem ficar na cama e não sair dela mais... Não era o meu caso, meu corpo se agitava. Eu precisava andar. Disse para um amigo, uma vez: eu quero andar sem parar e não voltar mais, meio Forrest Gump. Eu não conseguia ficar em casa, me tornei evangélica para fugir de casa, para estar na igreja, para que Cristo matasse meus demônios emocionais (não adiantou, diziam que era falta de fé! Remeto a assertiva à cena da Carrie Bradshow defendendo a Charlote numa palestra motivacional dizendo que sim ela tinha fé), assim afirmo que sou uma pessoa de fé e que se fosse por fé, eu tinha me curado, com certeza!

A fé não me curou, a arte não me curou, tanto como não curou a Clarice, não posso defender isso na minha dissertação, mas no meu facebook posso falar achismos. Portanto, a arte nunca curou o artista: VanGogh, Kafka, Virgínia Woolf e tantos outros, Vivienne Haigh-Wood, primeira esposa de T.S.Eliot foi tratada como louca porque possuía um distúrbio menstrual intenso, ou seja, a ciência tem avançado no conhecimento das doenças psíquicas e deixando para trás o estigma de loucura. Com a arte fui, aos poucos, aprendendo a trabalhar meu humor e criar para me sentir melhor, emocionalmente. Nesse sentido, foi só durante a década de 90, depois de largar o estado, passar pelo shopping, como vendedora, comprar meu primeiro computador em 1995, sem emprego fixo, que passei a trabalhar em casa das mais variadas formas possíveis como autônoma. No passado, algumas vezes ajudando meu irmão na gráfica, no qual ele recebia, era independente e eu só a mulher que tem que ajudar a família, mas sem ganhos! Meu pai me ensinou a imprimir na máquina manual e na gigantona, aquela anterior a offset, mas possivelmente porque não iriam me pagar para eu trabalhar eu não fui à frente, nunca aprendi a montar os tipos para fazer a chapa, me sentia burra, achava que não conseguiria. A gráfica passou do meu pai para meu irmão, ele ficou com o dinheiro e eu era estigmatizada de vagabunda, pois só estudava!

Havia uma possibilidade, eu ir à rua pegar clientes, como fez meu irmão a partir dos 9 anos de idade. Nesse sentido, o irmão mal, também precisa ser exaltado, pois tem suas qualidades, enfrentou a vida a partir dos 9 e sempre foi vitorioso, até mesmo no casamento que muitos fracassam, ele têm uma família linda! Porque não ia a rua procurar clientes? Simples (sarcasmo)! Fui ensinada que era burra em matemática e tinha medo de fazer os cálculos de cobrança! Porque então aos 48 anos de idade eu aprendi a fazer tais cálculos e se você me pedir um banner de 1m por 22cm eu sei fazer o cálculo? Porque mesmo sendo de letras, nunca fui burra em matemática, somente aceitava o que diziam que eu era, identidades roubadas! E o resultado foi pela primeira vez entender que estava começando a fazer dinheiro em gráfica, como minha família de muitos gráficos e por isso voltei a ter crédito na praça e comecei a reformar, comprar e veio a pandemia... Começo, primeiros passos, primeiros clientes, Bankruptcy!!!

Nesse sentido, meu trabalho sempre foi criação, sempre foi arte e não tem como dizer que porque não vou a rua procurar clientes em um momento pandêmico não trabalho. Se não trabalhasse, voltaria para o quadro clínico que me remete a depressão. Insisto que em 98% da minha vida diária não sinto depressão, me sinto perfeitamente adaptada ao isolamento social, não surtei, entendo que a maioria surtou. Não é meu caso, mas sim continuo sentindo ansiedade intensa, mas sei trabalhar com ela e Pânico, brutal, desconcertante e me acorda em darkness profunda que se dissipa em função do trabalho diário, ao sentar no computador volto a me sentir bem. Não me sinto sozinha, mas quando converso com amigo, vejo a necessidade de gente e desato a falar feito papagaio.

Concluindo... o que levou para longe a angustia depressiva? O tratamento no Centro de Orientação a Mulher (CEOM) aqui da cidade e fui encaminhada em uma entrevista de emprego (2015) para pedagoga, pois quando ela perguntou para mim quais as minhas qualidades, desabei a chorar! NUMA ENTREVISTA DE EMPREGO?! Alôooo!!! E a Marisa disse: "você é vítima de violência familiar" vou te encaminhar para o CEOM e eu respondi que tinha aula na UERJ, não podia faltar (não falto aula), ela não "deixou", disse que eu não poderia ir estudar sem conversar no CEOM, ligou, a prefeitura daqui mandou um carro me buscar e me levar ao CEOM. Entrei em um tratamento com assistente social, advogado, psicólogo, além da sexta básica para quem está em vulnerabilidade financeira. Já no começo do trabalho, a depressão foi a primeira a dar tchau... Ao longo do tempo e por uma leitura de mundo atenta (Ah! Paulo Freire, te amo), coloquei para o meu psicólogo que achava que tinha TAG e procurei um psiquiátrica. Não deu outra, entrei na medicação e descobri no Ambulatório Nize da Silveira um grupo chamado loucos pela vida. O que seria isso? Um grupo de apoio para suicidas e aí eu finalizo com Setembro Amarelo: "Não me perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti!" - John Donne. Cada vida é especial, os suicidas não estão com fogo no rabo, muitas vezes não entendem quando você fala que passou pelo mesmo e deu conta, pois possivelmente eles só darão conta com terapia + medicação. Suicidas não ficam bem quando são ameaçados de mármore do inferno, mas o inferno não é quente? O inferno não está destinado aos suicidas e que me desculpem os amigos evangélicos se vierem postar assertivas de fé tresloucada, pois serão apagados! A fé não salva suicidas, a força de vontade não salva suicidas, como não salva alcoólicos, quem trata alcoolismo só o AA e suas divisões. Empatia ajuda, mas não trata. Nos meus 49 anos só conheci duas músicas que esclareciam perfeitamente o suicídio e quem fica e as duas são de Pitty: Pulsos e Lado de lá e elas não deprimem! Me ajudam no momento que me sinto suicida e só me sinto suicida, atualmente, quando a má política tira direitos essenciais! A música pulsos fala para guardar as linhas horizontais e tentar achar que é todo mal, exercitando a paciência, mas ao dizer que os pulsos são a saída de emergência, a música livra do peso de achar que é um erro o suicídio! Para o suicida o suicídio não é um erro, mas uma saída! E não sei dos outros, sei de mim que quando a dor era atroz, lá atrás, eu imaginava um outro mundo em que não doesse tanto! Mas quem vai dar o salto? Quem vai descobrir se é ou não? Kurt Cobain não voltou para contar, nem Virginía Woolf, muito menos Walter Benjamin! E a música Lado de lá, confirma a assertiva de que há dúvidas sobre o lado de lá, ao mesmo tempo em que "e levou de mim aquele talvez rir de tudo no fim", ou seja, foi brutal ao tirar da pessoa do lado de cá o convívio, o amor, mas quem está do lado da vida tem a esperança em rir de tudo no fim... Nesse Setembro Amarelo para ajudar o suicida deixe o telefone/messenger/whastsapp aberto para ele, ouça sem julgar, não minimize a dor do outro, não se compare, pois somos infinitamente diferente de outros. Não dê conselhos, só quem está habilitado a dar feedback são os profissionais de saúde mental, até os profissionais de saúde física precisam encaminhar se sentirem que o paciente pretende adiantar a viagem para o lado de lá!

Margareth Sales