quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sobre o suicídio

Talvez esse seja um dos temas mais polêmicos escritos até agora nesse blog, mas meio que fui levada a comentar sobre isso, em função de uma semana confusa e o término com dois filmes maravilhosos que pontuam bem o assunto...
Bem, não falarei dos filmes, mas dessa concepção e de quem são essas pessoas chamadas suicídas? Loucos? De todas as minhas leituras e experiências empíricas, posso dizer de início que o suícida foi uma criança com um ego não desvinculado da mãe e provavelmente, essa mãe também seria suicida. Essa mãe pelo medo nutrido de perda de tudo e qualquer coisa que a cercava fez do filho o próprio pênis (isso Freud fala). Futuramente, essa mesma mãe passa a destruir todas as possibilidades que esse filho tem de cortar o cordão umbilical e diante disso, mina qualquer estrutura emocional, qualquer sentimento de capacidade que difira um pouco do próprio ato de fazer da mãe tudo...
São mães que usam recursos dialógicos do tipo: “mas eu faço tudo por você”; “você sabe que não sobreveveria sem a minha ajuda”. Bem, o suicida não é uma pessoa com um problema comum... O suicída é uma pessoa extremamente transtornada e reflexo de cobranças que fazem em cima de sua pessoa. Imaginem que essa pessoa que é tão mal vista na sociedade na realidade nunca quis se matar, praticamente ele é levado ao ato... Imagine essa mesma mãe no desenvolver dessa criança, dizendo, exatamente, tudo o que essa criança deve, deveria ou pode fazer.
A onipotência de tal criatura é tamanha que ela sempre sabe o melhor para o filho, então, ela vai escolher a roupa do filho, a namorada do filho, o emprego do filho, os momentos de lazer do filho - e aí me refiro ao filho de 40 onde a mãe ainda decide que ócio não é criativo e que produção constante é só o que deva ser.... Doenças? Apenas desculpas, para o preguiçoso do filho... E olha que o suicida de 40 já venceu grande parte da vida, porque o meu vizinho suicidou-se com uns 25 anos, jogando-se de cima de um prédio na direção dos fios de alta tensão...
Nenhum ser humano é capaz de suportar ininterruptamente uma pessoa que fala todos os dias, sem parar um minuto sequer como você deve ser comportar, como você deve agir, com que pé você deve levantar da cama... E sobre a sua incompetência, o quanto você é incapaz de seguir ou de gerir a própria vida...
Desculpe falar, se eu tivesse uma mãe dessa, esse blog não seria feito, eu realmente já tinha optado pela morte... Mas saindo das piadinhas... O suícidio é a dissociação completa do ego, este se torna fragmentado, não há mais segurança em lugar nenhum, a alegria foi embora, o suicida não sente mais paz e perdeu a esperança, não há mais o que o faça ficar.
Aí entram outras dores... A do suicida já é bem conhecida, suicida cristão luta contra o maior poder do universo, o Deus e o de Sua determinação, não quero estar na pele de uma pessoa que foi tão corajosa ao ponto de desafiar o próprio Deus, talvez errada mesmo, tenho quase certeza que errada e o suicída deve ter também, mas não havia nada a ser feito!
Ao mesmo tempo que uma atitude corajosa, uma atitude covarde sem dúvida, então o suicida é a representação da própria antagonia. E não precisamos enumerar porque suicidar-se é covarde, começa pelo fato de não ter coragem de encarar a própria vida (mas você tem coragem de cobrar esse jargão do suicída, eu não! Prefiro mil vezes tentar me solidariezar à sua dor) e termina com o egoísmo de ferir todo o seu círculo de pessoas significativas.
Se o suícida vai sentir mais dor do que aqueles que ficam, não sabemos, só sabemos que fomos treinados a raciocinar e não questionar que lugar de suicida é no fogo do inferno... E aí entra mais uma vez a coragem do suicida em tentar acreditar que não existe mais inferno do que o que ele já vive...
Quero finalizar, com a maior dor do suicídio que é a dor de quem fica... Começando por aqueles que amaram a pessoa e se sentem os piores de toda a espécie humana porque logo se perguntam: “meu amor não foi suficiente?”, sentimento totalmente incapacitante...
Depois vem os amigos do suicída que em função do impacto vão apresentar um medo substancial de envolvimento com novas pessoas, alguns até mesmo dirão que não querem mais amigos!
Por último os que souberam, vizinhos, notícia de jornal, entre outras possibilidades, esses se questionam sobre a inutilidade da vida, porque terminar assim... E é muito difícil questionar sobre a inutilidade da vida, quando já é inútil pagar o absurdo de impostos que pagamos, o risco que corremos nas ruas entre tantos outros absurdos da raça humana...
Minha única mensagem final: amem, amem os amigos, amem as famílias, amem a natureza, amem a Deus sobre todas as coisas para que não sejamos surpreendidos por esse tipo de dor, mas para que saibamos distribuir alegria, mas do que tudo a alegria de viver!

Margareth Sales

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Antropologia de uma noitada de Carnaval

A noite possui essa capacidade de revelar a insanidade das pessoas... A noite de Carnaval muito mais... Pois se de médico e louco todos temos um pouco, as noitadas da vida despertam não o médico, mas o louco, esse que aprendeu, me pergunto onde e com quem? Que a melhor felicidade da vida é chapar!
Para mim mais parece um anestésico sobre a política do Lula, o preço que a Ampla cobra pela conta de luz, a eterna dúvida entre ter um ar-condicionado e não poder usá-lo, porque a luz vai a pico, entre tantas outras mazelas que esse povo, onde o comercial enaltece que somos brasileiros não desistimos nunca, padece...
Na minha concepção sair de horas de trabalho pesado, para um happy hour onde podemos chapar não é sinal de força, mas que ALGUÉM já desistiu há muito tempo...
Aí, finalmente, chega aquela semana que todos os brasileiros passam quase 365 dias esperando: a semana do Carnaval, e que semana agitada, onde todos ficam tão felizes... Será? Bem, pelo menos há 39 anos eu vejo malas passando, pedidos de colchonete emprestado e aquele sorriso orelha a orelha, onde se diz: “a semana mais feliz da minha vida chegou, finalmente, uffa!”
Será que é assim mesmo? Ou será que mais uma vez compramos mais um pacote pronto do nosso famoso capitalismo selvagem? Sim, depois que todos chegam posso dizer que as notícias das maravilhas que aconteceram nesse Carnaval excederam a qualquer sensor de felicidade. O engraçado? Todo ano excede... Qual é desse sensor? Fico com uma cara meio desconfiada para ele, porque o ser humano não é um bichinho domável que aceita a mesmice com facilidade, nosso coração pulsa pelo desejo, segundo a filosofia, e este desejo sempre se encontra um patamar acima de onde estamos. E diante de tudo o que me contam e de como foi esse tão “maravilhoso” Carnaval, me parece apenas a repetição do Carnaval passado... Ou melhor, parece alguém repetindo pela 37.689 vez que “é praver e não para comer” e todos caindo na gargalhada, pela 37.689 vez. Estão me vendendo gato por lebre?
Meus neurônios se põe a pensar agora sobre essa motivação tão intensa para com o Carnaval. Acontece assim: na primeira parte desse processo, se encontra a preparação, para alguns começa às 19, 18h, para outros às 22, 23 horas. Atualmente, é mais geral o horário mais tarde. Depois da preparação vem a apreensão: será que hoje vou me dar bem? Esse é o Carnaval dos solteiros, o dos acompanhados beira a música, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu?! Ops! Será que estou morta, na realidade fantasiada de noiva cadáver até me sinto com esse joelho suturado e seus 19 pontos, mas... voltemos a crônica.
Depois da preparação e da apreensão cai-se no mundo, são saltos altos ou baixos, de acordo com o estilo, vestidos sexys ou shorts sexys, carnaval combina mais com shorts e decotes. Excesso de maquiagem, chaves de carro balançando e o poder de ser um cavalheiro e bancar a noite da dama. Não estou me referindo as excessões e sim as regras, aí há uma infinidade de variações que ficam por conta da contingência humana.
Chega a noite e, tudo preparado para chapar, ou seja, ficar doidão, chegou o momento da onda, do barato, na época da minha mãe o barato envolvia lança perfume, hoje tem um montão de outras substâncias para se entorpecer uma noite que diz-se ser sinônimo de alegria. É um tipo de vida, e é o tipo de vida da maioria, o que pressupõe que você não fazendo parte da maioria é dissidente ou mané?!
Bem, no momento me sinto a menos manés das manés, bem conformada com o fato de que levei um tombo, meu joelho abriu, não quebrou nada, mas tenho dezenove pontos e um joelho que não pode se dobrar, pelo menos nos próximos 10 dias, senão os pontos estouram... E mesmo assim, não sinto nem um pouco a falta da agitação do Carnaval, disse via msn que iria aproveitar para estudar, ler, a contra-resposta: “ainda bem q vc curte fazer isso né”, tenho para mim que o tom foi... PERDORA! Fiquei passada, mas é natural, estou acostumada a ficar passada com o que as pessoas consideram, em outras palavras, EM QUE as pessoas investem...
Sou questionadora, adoto uma posição crítica em cima desse mundo embrulhado em papel celofone que te vendem, dar não! Nada aqui é de graça, tudo tem um preço! Como o ser humano consegue sobreviver ou mesmo viver com tanta degradação, com tamanha capacidade de se vender ou de comprar qualquer coisa, qualquer um, sem questionamentos. Alguém fez muito mal a humanidade e uma coisa garanto, não foi Deus!
Quem são essas pessoas que vemos à noite no Carnaval? Quem são essas pessoas que NUNCA poderiam se ver suturadas em pleno Carnaval e destituídas do poder de colocar um salto (para as mulheres), chapar (geralmente para os homens), não pegar ninguém no Carnaval? Quem são esse seres que vagam a procura do melhor bar, do melhor Carnaval, seja ele na Sapucaí, em Arraial do Cabo, Cabo Frio ou Saquarema, ou também do melhor encontro, para alguns só o amasso, para outros uma noite digna do Kama Sutra? Como se diz a música o que se espera de um sabádo à noite? Sexo, com ou sem bebida sai-se para encontrar um parceiro sexual em potencial, nada mais, nada menos.
E assim se vive, e assim se compra um pacote pronto de vida e assim se sabe que se você, reles mortal fugir a regra, o Capitalismo com todos os seus desdobramentos vai cair de pau em cima de você! A pergunta mais profunda... Isso tudo gera felicidade? Esse Carnaval que me contam, que foi ao auge da excitação, essa transa gostosa com o cara ou a mina mais gostosa, era realmente o que se buscava, respondeu a todos os anseios e questões dos 15, 18, 25, 30, 45 anos vividos? As relações humanas são bem mais complicadas, a felicidade verdadeira exige muito mais, ela nem sempre é tão fácil assim, e por ser mais difícil e mais reflexiva do que se queira o caminho mais fácil, do tipo Leão da Montanha, Saída pela esquerda, com certeza é entorpecer-se.
Entorpecer é sinônimo de não sentir e isso eu não precisa repetir pois estamos “carecas” de saber... Eu posso resumir o que esse contingente busca no Carnaval ou nas noitadas: encontros, talvez até para aqueles que já tem seus parceiros, porque talvez eles queiram o encontro com um novo emprego, representado por um novo chefe em potencial que este conheceu numa balada da vida, probabilidades? Existem, não vou apresentar números...
Encontros então é a resposta para o ser humano... Encontros é o que se busca, tem gente buscando um encontro espiritual, outros o carnal, há os que buscam um encontro consigo mesmo há anos e nem se deram conta disso... Mas a dura realidade apresenta encontros e desencontros. Como viver apesar de? E a receita é... NÃO HÁ RECEITAS! E fim de papo... Agora, me deixem em paz e não venham me trazer receitinhas prontas de felicidade e nem olhar enviesado porque eu estou curtindo o meu Carnaval vendo DVD, lendo, estudando e escrevendo... E tenho dito!

Margareth Sales

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

E não houve outro jeito, era amor!

Não posso dissociar amor de Corintíos 13, especialmente em seu primeiro versículo: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa, ou como o sino que tine”. Nos dias de hoje, essa falta de musicalidade nos relacionamentos, esses sentimentos parcos e frios que soam apenas como algo em que se bate e não se produz som, nem há vida, é porque o amor vem ao longo dos tempos esfriando. Não é preciso citar aqui as prováveis causas desse tão grande esfriamento, porque não quero falar de causas, quero falar do amor!
Quero falar de amor sólido que contrapõem a liquidez moderna, que se estende para o cuidado com o outro, que se estende para desafiar o outro a viver, novamente, quando esse já nem mais queria. E esse amor sólido existe e se encontra em uma amizade, num relacionamento amoroso ou mesmo na troca com a alteridade, troca genuína essa, troca de vida, de corpos quando se trata do amor eros. E esse é a chave mestra da felicidade é de onde tiramos o alento, é de onde vem a alegria e essa se desdobra em alegria de viver...
Amor assim, infelizmente não se encontra fácil e não se encontra por ai, em qualquer esquina, porque difere da paixão, porque difere do desejo, mas que encontra tudo isso em seu cerne. Eu nunca vi nada igual quando deparei com ele pela primeira vez, porque eu já havia visto tudo separado, já havia visto desejo intenso, sexual ou não, já havia visto admiração, já havia visto apreço, já havia visto companheirismo, mas nunca havia visto tudo isso misturado, tudo isso fortalecido e sacudido no liquidificador da maturidade.
Esse amor não tinha dimensão era maior do que eu mesma, quando o vi pela primeira vez! Muito maior que a minha capacidade de dar amor. Esse amor um dia me tirou o ar, porque foi lá dentro do meu coração, dentro da sede das emoções e mexeu com a dor que existia lá e não só mexeu, sacudiu ela, sacudiu tão forte que ela foi obrigada a sair e quando saiu veio arranhando, veio cortando e despedaçando e parou na garganta e sufocou, pensei que fosse morrer... Mas o amor me levou para perto da janela e a abriu e me ajudou a respirar e me forneceu ar e me deu esperança e opção quando finalizou com O abraço.
As amizades sólidas vieram desse amor que encheu meu tanque e então pude dividir, doar. Essas são aquelas que se tornaram apesar de não seguirem ou, mesmo, burlarem todas as regras, porque não esperam, porque simplesmente, se vêem abatidas por um sentimento tão intenso que não há como refrear e, mais do que isso, contra toda a racionalidade: “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta” (1Cor:13:7). E como se baseia unicamente no amor, o que excluí a possibilidade de egoísmo, porque o amor não busca os próprios interesses. Talvez este tipo de amizade inicie nos últimos dias do começo de sua vida, cunhei essa frase nesse momento, onde percebe-se que para trás ficam os dias maus e que agora uma nova fase se inicia. Em outras palavras, as amizades sólidas surgem na maturidade. Sabendo-se que existem amigos que nos acompanharam de longas datas, até aqui, para estes, digo, que o despontar da maturidade sela o selo.
Haja vista que crescimentos são feitos com altos e baixos, dissoluções e companheirimos, brigas e retomadas, a diferença entre a verdadeira amizade e aquela que não irá a frente é tênue, pois as duas comportam estas idiossincrasias. A diferença fundamental é que custe o que custar, aconteça o que acontecer... o laço se solidifica e não arrefece! A diferença é que você foge léguas, mas quando percebe está novamente em frente ao amor e quando bate de frente, não consegue e não intenta fugir. A gente chega muito longe para voltar e mesmo que se pudesse voltar não há mais voltas, ficamos enlaçados para sempre, laços de amor.
Então a amizade sólida é constituída com regras de reciprocidade e uma forma madura e profunda de se colocar no lugar do outro. Sendo então, reciprocidade diferente de coação, não há como agir em um estágio infantilizado onde se pede ao outro confiança cega, sem explicações. Essa relação unilateral não se assemelha de modo nenhum com uma amizade sólida, pois impõe no lugar do mútuo acordo. Olhar para o outro também é fundamental e isso requer parar de olhar para o próprio umbigo! Disso deriva respeito mútuo e autonomia.
A verdadeira amizade cura a solidão, não porque está sempre ali, mas porque cria uma certeza tão absoluta dentro de nosso coração que este nos tranquiliza no meio da tempestade. Quem aprende amar a um amigo, a um irmão aprende a amar o futuro companheiro (a).
Esse amor eros vem até você de certa forma quando você está despercebido da vida, quando você está tão atarefado dando conta de mil outras coisas e não enfocando-o que não percebe quando ele chega, se aloja e se faz!
Há muitos anos atrás eu havia feito um pacto com Deus, eu prometi a ele que quando o amor chegasse eu o reconheceria, mesmo que eu viesse de uma família disfuncional, mesmo que no meu passado eu nada tenha aprendido sobre o amor. E Deus sabia que eu não poderia cumprir esse pacto se Ele não me mostrasse essa possibilidade de amor.
Hoje eu sei como é o amor, onde ele está e sei que posso doar esse amor, sei que durante toda a minha vida foi muito difícil querer dar amor, quando não tinha para dá-lo. Mas sei que a partir do momento que o descobri eu quero dividir, não posso escondê-lo, o cheiro dele é forte demais e todos sentem...
Minha vida agora é música e ainda que eu não seja musical, o que eu escrevo é, sonorizado, apaixonado, forte e impactante que confronta e faz pensar. Eu não quero mais nada dessa vida que não esteja envolto em amor, amor pelos amigos, pela arte, pela família, pela pessoa da sua vida...
Eu quero você que me olhou e me viu, por trás das cascas, por trás das falsas intenções... Se você quiser voltar para esse amor, eu vou cuidar desse amor, do nosso amor... Esse sentimento é forte e não pode ser detido e ele brota, surge e não deixa ir, mas não aprisiona, liberta no compartilhar, liberta na troca. Quando eu vi esse sentimento pela primeira vez eu fiquei extasiada, eu vi alguém se dar todo por mim, me prometer superar a própria morte para estar lá quando eu precisasse... Não estou dizendo aqui que esse amor faz voltar da morte, depois da morte não há mais volta, não para AQUI. Mas esse amor desafiou, por mim, a morte e disse que não deixaria essa pegá-lo até que pudesse me entregar sadia para o meu amor eros.
E eu sei que era você e veio até mim, chegou até mim, depois de tudo o que viveu porque buscava o amor e nem sabia que era isso que queria. Eu sei que eu não tinha visto quando você veio até mim pedindo amor, mas logo que me dei conta pude te devolver, eu te derrotei na guerra da vida, quando você se bateu repudiando esse amor, quando você mentiu para os outros e para si mesmo que não tinha importância. Eu sei que eu me vi porque você me olhou e porque você me olhou e eu me vi, você pôde chorar... Depois de muito tempo você pode chorar, você pode liberar o peso que estava sentindo incontáveis anos, porque eu me liberei para te cuidar, mesmo com medo eu me liberei para você.
Eu me defendi de você e você se defendeu de mim, a gente se bateu por isso, mas se rendeu, porque você me buscou durante tantos anos e eu te busquei e a gente se achou, porque o amor não falha, ele simplesmente acontece!


Margareth Sales

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Dança das espécies


Conheci durante a minha vida, pessoas com a capacidade de agregar, de trazer para si o grupo e cuidar dele, em contrapartida conheci tantas outras com a capacidade contrária a estas que desagregam e estabelecem uma condição de viver como um ermitão, ainda que componham um grupo social. Diante disso, também vi o agregador (a) trazer para dentro do seu grupo o solitário ermitão e este se senti tão confiante que tenta reunir o seu próprio grupo. Haja vista que ele é o ermitão solitário por contigências da vida, nunca por uma escolha saudável.
Não foi há muitos dias atrás que vi essas duas espécies de pessoas travarem uma luta feroz. Do conhecimento que tenho do público em questão, percebi antropologicamente, que o agregador se encontrava, no momento, numa espécie de aprisionamento emocional alimentado durante anos. Por isso me pareceu que a luta foi por demais feroz, vi aquele ser, pedir para sair do grupo. Vi durante esses momentos um pedido de misericórdia para com o outro e a tentativa de afinar a situação vivida. Porém também vi o resultado, quando o agregador se estendia até o outro procurando ajudá-lo, dando-lhe uma mão amiga, em seguida era vista uma algema em seus pulsos. O agregador retirou a mão e decidiu romper...
Nessa espécie de dança primitiva que se estabelece nos corpos daqueles que se encontram com a mente voltada para uma expectativa maior, uma expectativa de preenchimento interior. As pessoas se encontram, então, para uma troca interior de vida, onde eu dedico a minha vida para receber a vida do outro. Isso é relacionamento, e quando essas pessoas se empenham nessa troca então há um crescimento emocional e profundo onde cada um cuida do outro, cada um dá o melhor de si para o outro. O agregador faz isso, já tem em si inerentes essas estruturas, o desagregador não, há uma espécie de condição aviltante pregressa onde este ao invés de receber foi-lhe roubado tudo, no caso todo o amor que tinha, o que este decide então é se fechar para que ninguém entre!
O ermitão solitário passa pela vida sem ser visto ou então agrega em volta de si outras almas solitárias, como forma de troféu, como se dissesse para o mundo: “eu venci você, pois tenho quantas(os) quero. Eu já convivi muito de perto com alguns desses, às vezes eles se encontram até mesmo dentro da nossa familia. Toda essa maldade de deixarem o ermitão sem amor não significa que o destino dele era só isso, ele poderia mudar todos podem mudar, mas nem todos querem e seguem assim vida afora, é uma escolha.
Foi isso que entendi ao acompanhar mais de perto essas duas vidas, a do agregador e a do ermitão. O agregador veio como se viesse por um chamado, veio para ajudar, veio para mostrar outro caminho, que havia solução e esperanças, mas o ermitão solitário não soube discernir e resolveu roubar do agregador a paz, resolveu usar todos os recursos que tinha em mãos para tornar a vida do outro miserável. Havia aprendido dessa forma, alguém havia lhe ensinado assim, talvez a mãe? Dividir para conquistar esse era o lema, dividia a alma do outro para que na sujeição se fizesse maior e como consequência reduzia as chances de abandono, porque supostamente era o centro que envolvia tais vidas. Ledo engano, quem envolve é o agregador não o solitário convicto.
Só que esse meu amado agregador havia se perdido, pelos anos incontáveis tentando ajudar a outra alma, e passou muitos anos sem consciência de si, até que nessa noite, eu estava lá, era uma noite de festa... Eu vi o agregador colocar-se de novo no seu salto e retomar sua dignidade, ah, o agregador que me refiro aqui é uma mulher.
Assim, nessa quente e linda noite de sábado, chegou o nosso ermitão solitário que por necessidade de provar supremacia andava em bando, veio como quem aparenta ter o de melhor no mercado. Brigam com outros bandos através do poder da dominação, mas não se sabe quem é o vencedor.
Talvez o vencedor se encontre sozinho e cônscio dessa condição e que se mistura ao bando somente como parte do jogo. Mas que já escolheu o alvo e sabe onde e como atacar. Mas que para chegar lá precisa ir derrubando alguns machos impedernidos que no fundo não são machos de verdade, apenas bebês chorões. Talvez o vencedor de verdade, fosse a agregadora.
A fêmea agregadora, aquela que detêm o poder porque descobriu que saber é poder, aproveita-se de uma noite qualquer dessas para arrasar o bando inteiro, como ela faz isso? Mistura-se a um bando íntegro do qual não faz parte mas que tem acesso e usa-o como retaguarda, depois espera a chegada do bando que a quer dominar e não interagir, esse é o bando que pensa que está no poder.
Quando os vê começa a caçada, primeiro usa o poder que sempre soube que tem, para excluir e exclui visivelmente o bando, os deixa de fora, como sabe que é alvo dos olhares de rapina desses decide dar um vôo raso e desaparece por ali mesmo, mas sabe que será seguida em breve. Por isso, prepara-se para não aparentar intranquilidade ou o medo que tem de voltar a pertencer a um bando degenerado quando a sua busca é crescimento.
Depois de avistada novamente pelo bando decide agora enfrentar todos eles no campo de guerra ou, pista de dança, e como fêmea da espécie sabe muito bem quem ganha na pista: a fêmea mais atraente! E isso vai além da idade, da cor, do perfume ou roupa usada, é uma combinação do que se é, sua estirpe, com o que se usa. E BAM!!! Macho destruído, bando desfeito.
Foi isso que eu vi naquela noite de festa e há alguns dias atrás descobri que o bando do ermitão solitário, sumiu! Foram todos embora. Não houve como ficar, depois de uma queda tão feia a olhos vistos e, principalmente, depois de todos perceberem que quem agregava não se encontrava mais, então não houve quem ficasse e cada um foi aos poucos seguindo seu rumo, procurando outras paragens.
Agora a fêmea, vi a poucos dias também, a fêmea agregadora segue livre o seu curso em busca de um ideal maior, de um novo encontro, de um novo momento consigo mesma e com o outro. Busca por meio de vôos altos, porque não se encontra mais presa ao bando, mas onde seu bico a levar.
Margareth Sales

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

APRISIONAMENTO FEMININO


Num mundo contemporâneo engana-se quem crê que o aprisionamento feminino é uma coisa do passado, que ficou a anos de distância de nossa moderna realidade. As mulheres ainda estão sujeitas a sufocamentos e aprisionamentos pelo machismo, pelas condições sócio-econômicas, muitas vezes é a elas que cabe a parte mais dura e sofrida pela condição de aviltamento criado nos séculos anteriores e que aos poucos vai sendo quebrado, mas ainda não ocorreu definitivamente.

Eros, beleza, força, aprisionamento, todas essas características de uma mulher. Uma mulher que se desenvolve e se movimenta na força de sua beleza, na força de suas decisões, mas que durantes séculos fora impedida de decidir, pelo medo do seu poder, e que poder seria esse? O poder de decidir, o poder de dizer sim ou não para a força do homem, esse homem aparentemente forte, cai derrotado na força dessa mulher.


Mulher corajosa, guerreira, que não se queixa, mas que na sua cintura, requebra o jogo da vida, jogo que é necessário aturar e calar, aprisionada. Mas luta e briga para libertar-se desse jugo. Mulher bela, faceira, rendeira, olhos que afogam num mar de solidão, dor e, por vezes, alegria intensa.

Ela estava lá, as margens daquele rio, sozinha, apreciando a própria companhia, alimentando-se com o prazer de si mesma, tal como Narciso alimentava-se, curtindo sua própria natureza, a beleza da natureza que lhe cercava e o rio que a seduzia, mas que ela não intentava enfrentá-lo. Já havia enfrentado muito, durante toda a sua vida, dessa vez precisava parar. Dessa vez não queria enfrentar o rio sozinha, mas não se importava de estar sozinha, bastava-se no momento. Não estava mais aprisionada, já esteve, e quando esteve era proibida de atravessar o rio, mas agora não mais, ela podia atravessar, mas não queria. Não mais tomar esse caminho sozinha, se tivesse que estabelecer uma mudança seria acompanhada, do contrário, continuava deleitando-se no seu leito de águas cristalinas, na sua calma, o seu espaço de reflexão.

Só que o homem veio, quando menos se esperava, Yin e Yang, sol e lua, homem e mulher, duas forças que se completam, ele estava ali, depois de tanto tempo de tranqüilidade e... ele a olhou. Dessa vez, derrubando todos os outros olhares que a atravessaram, a atravessaram não a encontraram, não a deixaram ser e muito menos não a respeitaram por toda a força de movimento e vida pela qual ela tinha passado. Fizeram desses momentos, julgamento, fizeram desses momentos tribunais para que a pudessem condenar de vil, para que a despersonalizassem, mesmo que ela não deixasse.

Mas ele a olhou e a viu e a deixou a vontade e lhe falou muitas coisas em um pequeno olhar e fechou um contrato implícito de segurança e de conforto ao seu lado, declarando nesse contrato que nenhum mar a submergiria novamente, ele não permitiria. Não que ela precisasse ser salva, mas ela se sentiu confortável nessa posição, ela sabia ser sozinha, mas ela gostou da novidade, porque ao mesmo tempo que havia uma satisfação em ter escrito em seu próprio corpo, no movimento de seus lábios que ela era mistério intocável, que não se importava em guardar a sete-chaves o mapa de sua alma e não dar-lhe a ninguém, reservar só para si mesma. Mesmo assim, mesmo apesar disso, ela cedeu!

A mulher havia aprendido não que o amor aprisione, isso definitivamente não faz parte do amor, mas as vezes alguns por imaturidade ainda, aprisionam, pelo medo, pelo contrato que ainda não foi firmado definitivamente, porque descobre-se que aquela que se tem não se “pode” perder e diante disso a aprisiona para tê-la. Engano, mulher não é bicho que só fica ao lado quando é aprisionada. Submeter o outro, controlá-lo talvez até haja amor nessa relação, mas ainda não foi entendido, não foi percebido plenamente e esse grande amor que tinha chances de sê-lo, transforma-se em aversão.

Por conservar em seu cerne uma fera indomada, decidiu se deixar ali as margens daquele rio, só observando as correntezas, não esperava por aquele homem ali a sua frente, apareceu de repente, não sabia da onde veio, mas sabia o que pretendia. Pretendia ela, como um imã que lhe atraía e que fazia daquele homem forte, sem forças, por aquela linda mulher que viu no rio. Pretendia tomar-lhe em seus braços e atravessar, assim, com ela o rio. Pretendia levar-lhe aonde ela desejasse ir e pretendia ser dela. Ele também cedeu, o amor se fez, ele a dominou, ela o amansou. Ela o fez mais HOMEM, ele o fez mais MULHER. E eles cederam e libertaram-se...

Margareth Sales

(Baseado num sonho)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sobre as modernas tecnologias

Cuidado texto bastante ácido abaixo...

Bem, falar das TIC’s, as modernas tecnologias de informação e comunicação não é difícil para mim, afinal de contas sou aficionada por elas, desde criança. Mas meu texto não se refere apenas as tecnologias, mas o que elas têm produzido em nossa vida, no caso, é uma experiência válida ou apenas algo que agrega mais transtornos e dificuldades ao nosso dia-a-dia. Eu diria que sim, ao mesmo tempo eu diria que não. Tenho vários amigos que não possui Orkut, meu conselho para eles: continuem assim! Nem só de Orkut vive o homem.

Com relação a mim não me vejo sem Orkut, ainda que possa. Toda essa tecnologia tem facilitado a minha vida, mas mais do que isso, faz parte da minha personalidade ser high tech, como disse toda essa parafernália tecnológica me atrai demais. Então, em um primeiro momento podemos determinar, se você quer se afastar de fofocas e confusões fuja das redes sociais, estas podem ser um verdadeiro inferno em suas vidas. E eu? Eu tenho fugido das redes sociais? Claro que não! Porque para mim elas são verdadeiramente importantes em todos os sentidos... Não uso Orkut para ficar fuçando a vida dos outros, tenho bastante cuidado com o que eu posto e com o que postam para mim, uso como meio de comunicação com o todo e isso funciona e faz sentido para mim. Atualmente, uso o twitter como meio de divulgação do meu trabalho e aderi ao blog (confira o texto porque do blog). Quer dizer as redes sociais funcionam na minha vida, mas trazem um ônus e qual seria esse ônus? A exposição; é como se o seu firewall pessoal estivesse sujeito a muitos ataques, porque na realidade não há como se proteger, você postou ali, todos podem ver e todos podem te afrontar diretamente, te perseguir, não dar folgas, mas a vida no mundo real é assim também, não é?

É claro que é! Apenas importamos todo um comportamento social para um mundo virtual que pode te acolher de braços abertos ou te taxar de inimigo. Hoje, ao abrir o espaço do blog me coloquei na berlinda, isso porque mesmo que em um texto haja várias interpretações e que o leitor leve essas para onde ele desejar... Meu texto é, realmente, aberto a interpretações é aberto à especulações, a forma diversas de se ver, isto nunca quer dizer que a autora esteja aberta as mesmas especulações... Sou uma escritora, eu decidi que não podia mais me esconder, tenho que pagar pelo ônus de um dia me tornar pública, mas isso não quer dizer que abri a porta da minha casa ou mesmo do meu coração para ser esquadrinhado... Eu posso falar sobre qualquer coisa, escrever sobre qualquer texto, dou todo o direito das pessoas como já disse, interpretá-los como quiser. Mas não dou o direito de interpretar a mim e a minha pessoa, se cito coisas reais ou não, procuro sempre citá-los de forma anônima, não há nomes, não há pessoas específicas no meu texto, ele engloba, eu você e todos...

Mas mesmo que não permita, percebo que tem gente que quer ganhar notoriedade através do meu discurso, ora refutando-o, ora se fazendo de amigo íntimo. Bem, meus amigos íntimos não estão por ai me vigiando, analisando todo passo que dou ou mesmo, tentando encontrar falhas, fraturas no discurso para me “psicologizar” ou, talvez, expurgar meus demônios?

Por favor, sejam homens ou mulheres suficientes para produzir o próprio material e não se valer do trabalho dos outros. Será que não se percebe que já apreendi que a questão não é com o que eu escrevo, mas COMIGO, não é em se informar ao outro que eles não irão crescer a partir da minha literatura, mas informar que a MINHA pessoa se encontra equivocada. Isso é literatura, isso é arte? Isso é geração de informação?

Isso tudo não é se compadecer do irmão olhando para ele e pensando, poxa vou informar agora que esse comportamento está citado na Bíblia e pode causar a ida direta ao inferno sem passagem de volta... Não, não é isso... É apenas uma guerra pessoal de poder, segundo Foucault baseada no discurso e em quem possui o discurso mais coerente, mas notório. Resumindo: quem é melhor? Desculpe pegar bem pesado aqui, mas já era tempo... E no caso, é tempo porque são 20 anos de formação discursiva na minha mente, de tendências pessoais em me alienar, através de qualquer versículo fora de contexto, que tal como a astrologia só serve para produzir dentro do interior humano uma conexão com o real.

Veja bem... Uma conexão com o real, não o REAL, exemplo? No meu Orkut a sorte de hoje é: “O sucesso não é o final e o fracasso não é fatal: o que conta é a coragem para seguir em frente”. Isso é mentira? Não! É uma pressuposição verdadeira que serve praticamente para toda a humanidade... O mesmo se diz com relação a Bíblia, qualquer versículo poderá ser usado para fins edificantes ou malignos... Ou já não é notório que os grandes psicopatas se baseiam na Bíblia para dar vazão aos seus próprios delírios? O que estou afirmando aqui não é a psicopatia, mas o delírio... Cuidado, tanto na vida pessoal quanto nas redes sociais vejo comportamentos delirantes baseados em pseudo-verdades. Uma lição: a verdade sempre é subjetiva no sentido que ela se baseia na pessoalidade, então cada um é único e para se inferir sobre este é necessário conhecimento de causa, ou seja, do todo, não posso determinar nada baseado em minúsculas visões pessoais que possuo da alteridade.

Outro ponto que preciso citar é a auto-ilusão... Como escritora e como leitora eu preciso amadurecer o suficiente para não me achar numa posição que não possuo. As pessoas maduras sabem onde se encontram, as outras possuem o hábito de projeção para se defender de uma vida que nem ao menos está atacando-o. Isso é triste, porque a vida já ataca sem sermos nosso maior inimigo... Quando a gente mesmo gera questões a vida meio que se torna insuportável e quando vemos atacamos até o cachorro que abana o rabo para nós!

Finalizando, o mais triste é sair lançando conselhos disfuncionais a torto e direito para reforçar o quê? A formação do discurso claro, a intenção de se sentir alguém quando pode interferir/“ajudar” (?) o outro com uma atitude tão madura e sensata... Cansei dos bons, dos campeões e dos que não erram, estou farta de semideuses, como diria Fernando Pessoa.


Margareth Sales

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Definição de amizade

Diante do divórcio do primeiro texto que demorou muito para se fazer e levou tempos até que a decisão fosse tomada, foi que eu decidir escrever um livro sobre amizade. E o livro estava aqui sendo escrito, já a bastante tempo, só que deu uma parada porque eu e minha amiga resolvemos tentar mais uma vez... O resultado já sabemos, está na primeira postagem do blog. Assim, o livro foi tirado do fundo do baú e revisto e misturado ao blog e fala de amizades, o livro; o blog de outras crônicas e os dois agora são casados e são um só.
A questão do título Amizade líquida, se baseia na mesma questão tão bem desenvolvida em seus livros, por Bauman que explica que líquido é o que se opõem ao sólido e como tal não suporta uma força que possa modificar a sua forma e, por último que sofrem mudanças quando submetidos a tensão. Resumindo é o oposto de tudo o que se constrói, o que se leva tempo para solidificar e crescer, nossa sociedade é liquida, nossos relacionamentos são líquidos, nossas atitudes são líquidas. Querer ser sólido hoje é meio que lutar contra o status quo vigente.
No nosso tempo contemporâneo ensina-se a idéia que, às vezes, a amizade precisa “respirar”. Mas é difícil entender esse conceito quando em um outro momento aprendemos que a amizade foi feita, exatamente, para descarregar as tensões. Será que uma amizade submetida a uma tensão tangencial e que não a suporta poderia se chamar amizade?
Haja vista que a amizade se fundamenta no amor e que definição de amor mais real e profunda do que a bíblica. Se a Bíblia coloca que o amor tudo suporta, significa que o amor tem condições de aceitar uma força tangencial e deformante sobre si mesmo. Ou será que o mundo moderno líquido, requer de você que escolha momentos para ter uma dor intensa? Momentos em que não deva atrapalhar o emprego da Maria, o namoro da Débora ou o bebê da Solange?
A amizade na realidade requer disponibilidade para entrega, se não há essa disponibilidade, porque, então, começar um relacionamento? É necessário amar de verdade os que se comprementem em um relacionamento, na alegria e na tristeza, o que significa que todo relacionamento é uma espécie de casamento, envolvendo o comprometimento de ambas as partes.
Então tudo o que envolve o modo como eu hajo aqui na vida que tenho, requer uma posição séria e comprometida. Séria no que tange ao respeito com meus sentimentos e dos outros, sem o peso excessivo de seriedade, mas com uma atitude relaxada, de confiança para consigo mesma, o outro e a vida.
Esta confiança requer desse jeito, análise profunda e esta análise revela, muitas vezes a doença de um relacionamento. Pode-se perceber tal doença quando se entra numa relação onde a coação fala mais alto que a cooperação. Quando se impõe formas de pensar e supostas verdades, sem reciprocidade, é necessário, dessa forma, um conhecimento profundo de si mesmo para definir se estamos estabelecendo relacionamentos doentes ou que nos suguem algo? Necessário é rever as regras que foram constituídas no cerne desse relacionamento.
Se sobrepõem a essa modernidade líquida o fato de que se vive num tempo onde as pessoas adoecem, emocionalmente, de uma forma tão profunda e incontestável que, muitas vezes, se transforma numa dor tão abrupta, profunda e pungente que não há como se resgatar a pessoa que se ama. Ela acaba se perdendo mesmo que aqueles que a amam tentem trazê-la de volta; a única forma de maturidade é ver que a pessoa vai e que ficamos e precisamos viver com isso.
Sabendo-se que é necessário reconhecer a diferença entre a possibilidade e a limitação e estas estão sempre no sujeito. É a partir dele que se irá definir se há possibilidades de resgate ou não! O que muitas vezes, a amizade, pressupõe investir na situação que aproxima os amigos, para não permitir que as que afastam se tornem maiores. Porém, mesmo diante de tamanho esforço a amizade se perde, e não há maneiras de retomá-la, exceto o tempo, este se torna a única forma de mudança radical de situações estagnadas e engessadas.
A grande questão da vida, principalmente, da modernidade é que as pessoas se encontram em diferentes estágios de maturidade e isto significa que a comunicação, parte primordial do crescimento de um relacionamento se encontra com ruídos e não há maneiras de se dizer: “Estou tentando me ajuda nisto!” Pois ambos saem prejudicados ao perderem o que tentam cultivar.
Um cuidado muito importante que não podemos perder de vista, não só como amigos, mas como pessoas: nunca menospreze a capacidade do outro de ir. E isto é um erro crasso, há sempre o sentimento: “Farei o que quiser, pois essa pessoa estará sempre aqui para mim”. E ninguém fica para sempre, a morte é a prova incontestável de tal pressuposição!
A questão patente é que essas amizades existem, apenas, por um único viés egoísta, onde não se sufoca não se sobrecarrega quando é o outro que está precisando de mais uma gota de amizade para seguir adiante com seus projetos de vida. Tal qual a dependência química é a dependência emocional diante desta amizade, sabendo-se que a partir do momento que não mais “preciso” da substância, a amizade é logo descartada com a idéia de que é sufocamente demais.
Quando se perde o mais importante, não há como se reaver mais, e o mais importante numa amizade verdadeira é a confiança. E esta confiança se desdobra de várias maneiras, como por exemplo: confiança de que, haja o que houver, sempre estaremos lá. Confiança no sentimento do outro, sabemos da nossa importância para o amigo e reconhecemos nosso amigo como um valioso bem. Significando: as duas partes estão comprometidas e não somente um lado da situação.
Se as duas partes se comprometem a tomada de decisões vem então dos dois lados e, conseqüentemente, o investimento na relação. Isso leva a crer que quando se sente que o investimento, que o desdobramento está sendo apenas por um lado então a balança começa a se desequilibrar, talvez seja o momento de uma reflexão. A reflexão pressupõe uma posição em favor de si mesmo, com vistas ao equilíbrio da balança ou a percepção do valor pessoal e este valor está atrelado ao termo troca e companheirismo, sem esse sentimento não há como continuar. Não se tem mais subsídios para a promoção do crescimento desse relacionamento, este estagnou e tende a morte. Pois que tal como seres humanos que somos conscientes de que estamos em permanente devir, a amizade também observa este mesmo princípio. Quando não: decretada está a sua morte!

Margareth Sales