quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O verbo




Devo admitir que nunca me preocupei muito com o verbo. Essa história de fazer perguntas para ele me parece muito íntimo, sempre quis é usar o verbo com tudo o que ele poderia me oferecer. Sem me preocupar com as ações que pratica, ele tinha, somente, que me servir.
         Nunca pedi o telefone do verbo, depois que o usava. Sempre usava o verbo sem nenhum respeito, nenhuma emoção. Para mim o que estava contando era a diversão: EU ME DIVERTIA! Nem passava pela minha cabeça que o verbo queria estabelecer uma comunicação comigo, que ele queria que eu soubesse quem era o seu sujeito, qual a ação que praticava e para quem praticava essa ação ou o que essa ação interna desdobrava.
         Nunca imaginei que o verbo tinha argumentos internos que o acompanhavam e dependendo do verbo eram um ou mais argumentos. Quer dizer que o verbo queria se comunicar comigo e eu só queria uma boa noite de prazer? Usar o verbo indiscriminadamente sem me preocupar com toda sua lógica interna, só diversão, sem compromisso e sem seriedade?
         É muito bom quando somos adultos o suficiente para encarar as próprias questões: eu precisava ouvir o verbo, entender o seu objeto, mesmo que fosse direta ou indiretamente. Não podia mais deixar que o verbo fosse como o Latim, indecifrável para mim. Precisava entender esse latim e passar a amar o verbo. Não poderia mais deixar o verbo ser um objeto zero na minha vida, tinha que deixar ele me mostrar sua inferência, tudo o que estava implicado em seu objeto.
         Mesmo que em determinados momentos o que queria falar era tão complicado que, às vezes, poderia chamar de teoria X-Barra. Mas era mister deixá-lo apresentar seus argumentos internos.
        Esse foi meu grande insight: o que me tirou do meu mundinho abusador de verbos indefesos. Como sujeito eu precisava estabelecer uma relação de concordância com o verbo. Apostei nesse desafio mental, a partir do momento que perceber que o verbo tinha muita ação e reflexão para me oferecer. Alguns abrem o verbo, eu decidi desvendar o verbo para meu crescimento pessoal!
Margareth Sales

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Historinha para boi dormir



Depois desse título a vaca foi, definitivamente, para o brejo. Não que a vaca quisesse caminhar por caminhos tão ermos, mas quando se está fadado a ir para o brejo, para o brejo se irá. Na realidade, nossa querida vaquinha sonhou com coisas melhores, mas a vida é isso ai: uma sucessão de respostas para perguntas que não fizemos.
         Bom seria que a vaca pudesse escolher determinar se o brejo era o local mais apropriado à sua cútis tão delicada. Vê lá se brejo é o local apropriado para uma vaca de família, marcada no melhor estilo do ferro quente. Afinal, vaca que mamãe beijou sapo qualquer do brejo não põe a mão.
         Mas lá se foi, solitária, fazendo o melhor que podia de sua triste sina. Mas eu hein? Tadinha da pobre vaca, sempre lutadora, buscando seu lugar ao sol e foi lhe sobrevir destino tão trágico. No entanto, resignada caminhou a passos firmes para o seu brejo, ciente de que algo lhe tiraria dessa solidão desumana ou desvaca?
         Na cidadezinha brejeira onde a vaca morava ninguém acreditou que tal ocorrido fosse verdade. Até porque, todos acreditavam que dentro daquela cidade a única com possibilidades de ascensão seria a vaca. Mas destino traçado é destino cumprido e a vaca foi e, provavelmente, não voltaria mais... Deixando para trás corações suspirantes que nem ela mesma percebera em algum momento.
         Por isso que se diz que não podemos perder tempo e devemos dizer para que no futuro o que deveria ter sido dito, não fique sem ser dito para que não se transforme o dito pelo não-dito e dizendo em outras palavras... FERROU!  Caminhante solitária dessas grandes teias que envolvem a vida de todos, não percebeu que podia ser menos solitária porque tinha muitos boizinhos querendo enlaçar a pobre vaquinha desavisada. É muito amor na veia!
         Bem, eu acho mesmo que não tem jeito, a vaca não tem sorte e já passa das 4 da manhã, tá na hora de naninha, ir para cama que a noite não é criança nada, é só a classe dominante mais uma vez te enganando. E claro, amanhã é domingo e se ele pede cachimbo vou é tomar Nescau ou Toddy (comercial não pago, claro) para na mesma veia do amor que os boizinhos cultivaram pela vaca eu possa ter energia circulando nestas e na massa cinzenta para não enrolar meu público com historinhas para boi dormir.
Margareth Sales



quarta-feira, 27 de julho de 2016

Uma crônica poética

Eu conheci você e tive medo.
Mas eu quis você e deixei que se aproximasse.
Meu coração gelou e isso me causou pavor.
O que seria de mim se não pudesse enfrentar meus próprios medos?
Romântica eu? Não posso supor, mas um veio de lirismo me invade.
Porque aberta, porque inteira me deixo navegar emocionalmente pelo querer.
Expectativas? Muitas! Sinceras e medrosas que precisam deter o fôlego para continuar.
E assim transformar o medo em coragem atroz de guerreira perdida de algumas guerras.
Mas não de todas!
Algo foi plantado, na pressa? No susto?
Sim, dessa forma e dessa mesma forma reivindico o meu direito à autenticidade.
E de um momento de pura emoção transformar em um momento de pura verdade,
Em função de um espírito de construção.
Esse mesmo espírito é o que deve reinar absoluto
Em qualquer momento no qual o encontro se faça em direção a Terra do conforto emocional.
Margareth Sales

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Classsificados

(Repostagem, observação: Amo esse texto!)



Vende-se um coração: - 1 Quarto, habitado quase 40 anos pela mesma dona, a única vez em que o coração não dormiu sozinho naquele quarto solitário, o príncipe que dormiu de conchinha ali, virou abóbora e desapareceu correndo sem deixar o último beijo de despedida. Mas como essa crônica é as avessas, de trás para frente ou de dentro para fora é bem capaz de que se houvesse o beijo de despedida ao invés da princesa acordar, ela poderia acabar é dormindo para sempre nos braços gélidos do amigo, não muito íntimo de Morpheu: a morte!

- 1 Sala, não muito espaçosa, mas como o coração que habita nessa sala é enorme: sempre cabe mais um! A sala também tem uma história, eu acho que esse coração se encontra triste?! Será?! Mas como vender um coração triste? Coração é lugar de aconchego, de doação, de compartilhar. O coração falou no meu ouvido agora: essa sala também foi ocupada a bem pouco tempo e sabe quem fazia companhia, nessa sala, naquela poltrona azul à dona do coração? Era a esperança! A esperança veio feliz, vestida dela mesma e namorou naquela poltrona e foi feliz ali com beijinhos, abraços e carinhos impublicáveis nesse horário e nessa sala, ops: olha as crianças ai assistindo a TV!

- 1 cozinha, uma cozinha minúscula que mal cabem duas pessoas ao mesmo tempo nas cadeiras da mesa da cozinha! Eita! Que estou achando que esse coração é dos Sete Anões, tudo tão pequeninho. Não! De repente o coração é da Branca de Neve, afinal ela é mais bonita do que o bando de marmanjão anão.      Mas vamos voltar aos classificados: nessa cozinha o coração alimentava a esperança, aquela que estava na sala e que depois de dormir no quarto de conchinha acabou virando abóbora e desapareceu na vida. Ali o coração tentou alimentar a esperança de amor para que ficasse bem forte e pudesse crescer saudável. Não funcionou! Acho que o coração estava duro e não forneceu os alimentos certos, ou não?! Vai saber, mistérios da vida.

- 1 banheiro: Shiii... O coração me sussurrou algo novo. Ué? Quer vender-se e não quer vender o banheiro, como? Uma casa não se vende sem banheiros? Porque coração? Ah! Tá, entendi. Deixa eu explicar para os leitores: o coração disse que foi no banheiro, que ele foi agarrado de surpresa, pela esperança e recebeu seu primeiro beijo! Mas coração que coisa mais tosca, o primeiro beijo ser no banheiro. Ah! tá, entendi, deixa eu, de novo, explicar para os leitores, o coração disse que é assim mesmo, que a esperança aparece de surpresa, beija nos lugares mais inusitados, se nutre, fica forte e se transforma em amor...

Póooiiimmm (barulho de coração murchando), bem para esse coração aqui não funcionou e ele se encontra à venda, o preço é a fé, se alguém tiver fé para dar, o coração se vende para a fé. Dentro ou misturada com a fé, o coração vai atrás da esperança para que essa, finalmente, se transforme em amor... É tudo uma questão de TEMPO! Aliás, o tempo acabou de se colocar a venda também, esse espera ganhar mais tempo, para ter tempo de fazer o tempo sobrar!!!!

FUI!!!!

Margareth Sales

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Quando é estupro

 (Repostagem de 2010 - atualíssima)
Primeiro, estupro é uma situação bem feminina, acontece no universo masculino a partir do momento em que o homem é estuprado por outro homem. Então o estupro pressupõe um pênis. O conceito de estupro no Aurélio é:
“estupro [Do lat. stupru.] Substantivo masculino. 1.Crime que consiste em constranger indivíduo, de qualquer idade ou condição, a conjunção carnal, por meio de violência ou grave ameaça; coito forçado; violação".
    Segundo o Aurélio, então, o estupro arraigado em características emocionais não é estupro, mas só quando é feito por violência ou grave ameaça. Mas eu, a justiça, os novos conceitos psicológicos sabem que estupro é quando você constrange um indivíduo, por meio de poder, por meio do conhecimento que você tem do outro em não conseguir se defender. Ou a nossa sociedade não zoa o maluco quando está passando na rua, pois sabe que aquele não possui mecanismos para se defender? Haja vista que, voltando a psicologia, não é porque alguém já amadureceu que aprendeu tudo a respeito da vida. Há milhares de pessoas que não sabem se defender das injúrias. Há milhares de pessoas que passam por cima de si mesmos para “ajudar” os outros. E um mínimo de conhecimento emocional faria qualquer um manipular o outro de forma a conseguir o que deseja, passando por cima dos desejos desse outro.
    Então constranger indivíduos é estupro, porque mesmo que se haja constrangido para a pessoa tirar de seu coração a suposta bondade, ele foi constrangido a fazer o que não desejava fazer. E não me venha com a premissa de que as pessoas só fazem o que desejam, porque o que mais ouvimos é: “você não pode fazer tudo  o quer quer!”, isso pressupõe que um bom contingente de pessoas fazem o que não querem.
    Homens entendam que toda vez que você abaixa a cabeça da mulher para esta fazer sexo oral e o faz com pressão, contra o próprio fato de que ela está fazendo força em contrário para subir a cabeça, isso é violência e violação.
    Imaginem, uma princesinha criada pela mãe que não aprendeu a falar alto, ter que se virar para gritar com você que não quer! Isso é muito forte para ela, geralmente ela não vai conseguir fazer porque não aprendeu a gritar. Ademais ele está mostrando pela própria posição corporal fazendo pressão contra a pressão exercida por você! Não seria bem nítido que ela não quer? No entanto, você tenta porque pode fazer com que ela queira?! Mas não é mais fácil não forçar a musculatura da cabeça dela e esperar que se ela quiser, ela tome essa atitude? Ah! Mas eu tenho que forçar para ela ver que ela gosta, porque eu sei que gosta, pensa o homem... HOMEM você não tem que forçar a mulher a nada, mesmo que você ouça de sua boca que ela gosta de um sexo selvagem não quer dizer que ela quer esse sexo selvagem com você!
    Existem algumas diferenciações fundamentais entre um homem que te vê como uma pessoa e aquele que te vê apenas como objeto de cama. O homem que ao ser apresentado às suas amigas as comem com os olhos, decididamente, te vê como objeto sim, mesmo que as assertivas dele sejam em contrário. E outra questão que os homens desconhecem quando a mulher aceita sair com você ela quer te conhecer para ver se dá para construir um relacionamento sério e não porque quer dar! Preconceitos, do tipo, não tem mulher que só sai para dar? Nenhum preconceito, que cada um siga o que desejar, mas seria bom que esse homem não se enganasse, porque mesmo você dizendo com todas as letras que não quer, eles acham que você quer. Então uma das maneiras de minimizar a questão é deixar bem claro o intuito de tal relação: se para crescimento, crescimento! Se para farra, mútuo acordo das duas partes interessadas! Acordo é concordar se você diz que não quer, não quer. Ah, mas você fez? Fez e disse não quer é contado para a justiça, não importa se você está tendo crises de Piti ou não! Se você disse não que o homem busque outra mulher, mas o que eu quero mais deixar claro nesses escritos é, disse não é não, DISSE, o corpo dela diz sim, dane-se, é não, respeite. Não quero, é não!
    Alerta para as mulheres é bom treinar para quando não quiser um homem você deve dizê-lo em alto e bom tom. Então, não está afim diga NÃO alto, poderá até ser gritando, é a maneira deles entenderem, pois do contrário, eles interpretam qualquer coisa dito como assertiva, muito fácil, né? Intui por situações não amarradas, ou frases soltas aquilo que eles querem, não o que é real. Então, as palavras precisam ser claras e nunca dar margem a subentendidos, sabendo-se que o idiota ainda vai achar que pode e muitas vezes força, pega a sua mão, fala para você que não tem nenhum erro e colocar a mão no pênis dele... Allllooooo, o único erro é que você não quer, não porque você é a SENHORA repressora, claro que eles não entendem que você não quer, afinal de contas, eles são muito bons, ninguém nunca reclamou do sexo deles!
    Diante do pressuposto acima é que fica mais difícil a relação homem-mulher, porque na realidade a mulher é cheia de subterfúgios de dizer sem dizer, os homens se prevalecem disso ou para colocar em nossa conta coisas que não dissemos ou nos olhar com aquela cara: “quem é essa louca!?” Tanto uma como outra situação só  nós deixam mais atreladas a relacionamentos inconstantes e imaturos. Solução? Procurar o homem maduro e esse independe da idade, haja vista há maduros de 22 anos e imaturos de 47 e vice-versa. É questão de tato feminino não se deixar levar e maturidade emocional pessoal em identificar o que se passa no coração do outro mesmo.
    E cuidado com as perguntas! Elas são maldosas porque se você falar realmente o que pensa eles atribuem a você a personalidade que eles querem encaixar e que personalidade seria essa: a puta! O que eles não entendem é que claro, toda mulher no fundo é uma puta, mas a maior parte das vezes é puta de um homem só e as mais maduras se recusam a dar logo de início porque não estão afim, é preciso conhecimento para tal, não por preconceitos. O que estou dizendo? Para lidar com um homem você precisa ser A neurótica, e isso é um saco, porque você não é, mas para ser respeitada você tem que ser muito clara e quando você é muita clara eles se ofendem... Eita! A raça também é muito complicada... Para viver em sociedade é preciso então fechar as roupas, nunca marcar com alguém desconhecido, nunca dar da primeira vez, não falar termos chulos ou escrever no twitter tais, porque os homens olham e te julgam!
    É isso que estou dizendo? NNNNNãããoooooo, você tem todo direito de ser a puta que quer, de querer ter vários orgasmos, amar ir para a cama, mas você tem todo o direito de dizer que não quer quando não quer e ser RESPEITADA por isso! Então, minha luta aqui é: não é não, baixinho ou gritado ao pé do ouvido, excitada ou não quando te passam a mão, não é não... não é não... não é não... não é não. Esse é o meu mantra para que os idiotas do sexo oposto entendem e para que não sugiram aquilo que não é real... e como se diz no twitter #prontofalei!
Margareth Sales

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Dança das espécies




Conheci, durante a minha vida, pessoas com a capacidade de agregar, de trazer para si o grupo e cuidar dele! Em contrapartida, conheci tantas outras com a capacidade contrária a estas: que desagregam e estabelecem uma condição de vida solitária, ainda que estejam em um grupo social! Diante disso, também vi os agregadores trazerem para dentro do seu grupo os solitários e estes se sentirem tão confiante que tentam formar seu próprio grupo. Haja vista que é solitário por contingências da vida, nunca fruto de uma escolha saudável.

Não foi há muitos dias atrás que vi essas duas espécies de pessoas travarem uma luta voraz. Do conhecimento antropológico percebi que o agregador se encontrava numa espécie de aprisionamento emocional que fora alimentado durante anos. Por isso me pareceu que a luta foi por demais feroz porque esta rompia com o aprisionamento. Vi durante esses momentos o arrependimento do desagregador e a tentativa de consertar o relacionamento. No entanto, vi o resultado: quando o agregador se estendia ao outro em uma atitude amiga, era logo vista uma algema em seus pulsos. O agregador retirou a mão e decidiu romper...

A dança primitiva se estabelece nos corpos daqueles que se encontram com a mente voltada para uma expectativa maior, uma expectativa de preenchimento interior. Assim, as pessoas se encontram para uma troca interior maior, na qual eu dedico a minha vida para receber a vida do outro. Isso é o relacionamento, e quando essas pessoas se empenham nessa troca, então, há um crescimento emocional e profundo onde cada um cuida do outro, cada um dá o melhor de si para o outro. O agregador faz isso, já tem em si inerentes essas estruturas, o desagregador não, há uma espécie de condição aviltante pregressa, no qual foi-lhe roubado tudo. No caso, todo o amor que tinha, este decide se fechar para que ninguém entre!

O ermitão solitário passa pela vida sem ser visto ou então agrega em volta de si outras almas solitárias, como forma de troféu, como se dissesse para o mundo: “eu venci você, pois tenho quantas(os) quero”. Eu já convivi muito de perto com alguns desses, às vezes eles se encontram até mesmo dentro da nossa família. Toda essa maldade de deixarem o ermitão sem amor não significa que o destino dele era só isso, ele poderia mudar! Todos podem mudar, mas nem todos querem e seguem assim vida afora. É uma escolha.

Foi isso que entendi ao acompanhar mais de perto essas duas vidas, a do agregador e a do ermitão. O agregador veio como se viesse por um chamado, veio para ajudar, veio para mostrar outro caminho, que havia solução e esperanças, mas o ermitão solitário não soube discernir e resolveu roubar do agregador a paz, resolveu usar todos os recursos que tinha em mãos para tornar a vida do outro miserável. Havia aprendido dessa forma, alguém havia lhe ensinado assim, talvez a mãe? Dividir para conquistar esse era o lema, dividia a alma do outro para que na sujeição se fizesse maior e como consequência reduzia as chances de abandono, porque, supostamente, era o centro que envolvia tais vidas. Ledo engano, quem envolve é o agregador não o solitário convicto.

Só que esse meu amado agregador havia se perdido, pelos anos incontáveis tentando ajudar outra alma. Passou muitos anos sem consciência de si, até que nessa noite, eu estava lá, era uma noite de festa... Eu vi o agregador colocar-se de novo no seu salto e retomar sua dignidade, ah, o agregador que me refiro aqui é uma mulher.

Assim, nessa quente e linda noite de sábado, chegou o nosso ermitão solitário que por necessidade de provar supremacia andava em bando, veio como quem aparenta ter o de melhor no mercado. Brigam com outros bandos através do poder da dominação, mas não se sabe quem é o vencedor.

Talvez o vencedor se encontre sozinho e cônscio dessa condição e que se mistura ao bando somente como parte do jogo.  Mas que já escolheu o alvo e sabe onde e como atacar. E para chegar lá precisa ir derrubando alguns machos empedernidos que no fundo não são machos de verdade, apenas bebês chorões. Talvez o vencedor de verdade, fosse a agregadora.

A fêmea agregadora, aquela que detêm o poder porque descobriu que saber é poder, aproveita-se de uma noite qualquer dessas para arrasar o bando inteiro, como ela faz isso? Mistura-se a um bando íntegro do qual não faz parte, mas que tem acesso e usa-o como retaguarda, depois espera a chegada do bando que a quer dominar e não interagir, esse é o bando que pensa que está no poder.

Quando os vê começa a caçada, primeiro usa o poder que sempre soube que tem, para excluir e exclui visivelmente o bando, os deixa de fora, como sabe que é alvo dos olhares de rapina desses decide dar um vôo raso e desaparece por ali mesmo, mas sabe que será seguida em breve. Por isso, prepara-se para não aparentar intranquilidade ou o medo que tem de voltar a pertencer a um bando degenerado quando a sua busca é o crescimento.

Depois de avistada, novamente, pelo bando decide agora enfrentar todos eles no campo de guerra ou, pista de dança, e como fêmea da espécie sabe muito bem quem ganha na pista: a fêmea mais atraente! E isso vai além da idade, da cor, do perfume ou roupa usada, é uma combinação do que se é, sua estirpe, com o que se usa. E BAM!!! Macho destruído, bando desfeito.

Foi isso que eu vi naquela noite de festa e há alguns dias atrás descobri que o bando do ermitão solitário, sumiu! Foram todos embora. Não houve como ficar, depois de uma queda tão feia a olhos vistos e, principalmente, depois perceberem que quem agregava não se encontrava mais, então não houve quem ficasse e cada um foi aos poucos seguindo seu rumo, procurando outras paragens.

Com respeito a fêmea, vi a poucos dias também, segue livre o seu curso em busca de um ideal maior, de um novo encontro, de um novo momento consigo mesma e com o outro. Busca por meio de vôos altos, porque não se encontra mais presa ao bando, mas onde seu bico a levar.
Margareth Sales

quarta-feira, 30 de março de 2016

A revolta dos objetos

   
 

    Certo dia o despertador estava passeando quando encontrou seu velho amigo o perfume.
    Depois de muita conversa o despertador disse que estava muito triste.
    - Mas por quê? Perguntou o perfume.
    E o despertador contou que foi despedido porque atrasou um minuto.
    - Isso não pode acontecer - falou o perfume.- Uma vez meu chefe queria fazer isso comigo. Ele não tinha tomado banho e me passou, ficou com raiva só porque ficou fedorento. Eu tenho culpa de ele não tomar banho?
    - Os homens são muito engraçados - interrompeu o despertador - fazem as coisas erradas e não reconhecem, por isso nos colocam a culpa.
    - Sabe o que poderíamos fazer? - Sugeriu o perfume. - Uma greve.
    - É ótima ideia.
    E foram falar com todos os objetos: o ventilador, a tesoura, a televisão e muitos outros. Eles concordaram logo com a ideia.
    - Temos que fazer isso mesmo - falou o ventilador - nós não somos lixo e eles tem que aprender isso. Uma vez meu dono estava com raiva só porque brigou com a namorada e me jogou no chão. Eu tenho culpa de ele ter brigado com a namorada? Eles tem que aprender a respeitar nossos direitos, afinal eles precisam de nós.
    E a greve durou muitos dias, até que os homens perceberam que não poderiam viver sem os objetos e resolveram aceitar o que os objetos queriam.
    Foi assim que os homens aprenderam a ter mais carinho com os objetos, não só com os objetos, mas também com a natureza e tudo que cerca o homem.
    Se existe alguma coisa ao nosso redor, provavelmente não está ali à toa. Se aquela coisa desaparecer sentiremos sua falta, por isso devemos cuidar com muito carinho das coisas, para que a tenhamos sempre.
Margareth Sales