segunda-feira, 4 de março de 2024

Uma noite harmoniosa



Na sexta, fui ao teatro com Gabriel, na correria não li à respeito da peça. Era uma sinfonia. Me preocupei, afinal sou agitada e Gabriel é calmíssimo. Me surpreendi, percebendo, não que eu não seja muito mais agitada que calma. Entretanto, sou uma pessoa focada e atenta, ou seja, eu simplesmente joguei fora toda a modernidade, todo o 2024 e embarquei na melodia. Com uma certa apreensão, pois músicas instrumentais em tom menor costumam ativar uma espécie de depressão. Não fez, só me acalmou e quando começou a cantoras da minha infância (minha família era bem musical) me trouxe aquela paz que não é rara, mas muitas vezes roubada pelo estresse do dia-a-dia. 

O concerto passou por Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran, Maysa, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra, Nara Leão, Leila Pinheiro, Coisas do Brasil, né? Entrando muito no terreno da emoção, culminou com a projeção da luta feminina na música, porque poucas! E o que mais me chocou é que 74% das compositoras não puderam ter filhos e nem família e aí toca Rita Lee e eu choro, por mim, pelas mulheres, pela luta, pela vida e...

Naquela mesma semana eu tive que assisti (como seu eu fosse terapeuta, mas não, pelo meu perfil empático) a uma pessoa no nível de depressão mais profundo, emburacada, quase que em um caminho sem volta. Sempre fui um bom ouvido e ajudadora e, nesse dia, tentei levar um pouco do que aconteceria na sexta, depois da minha conversa com a pessoa. Porque sei o que é depressão e sei como sair dela. E crio momentos chaves, lindos, harmoniosos, fortes, empoderadores, como a música para os momentos difíceis.

Meu potinho está bem cheio, mas...

Margareth Sales

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Pollyana com fome


Ela pintava a casa. A tinta tinha sido comprada há dois meses atrás, com o pouquinho que, bem, não é que tenha sobrado... A mais barata. Enquanto pintava a casa, sentia-se sufocada, estava sem ar e com tonturas. Não suponha que era porque estava, totalmente, sem alimentação. 

A pintura era um dos meios de fazê-la esquecer do fato... Só que não adiantava, mesmo sem perceber, tudo o que podia pensar era: fome, tenho fome, estou com fome e voltava para a pintura.  

Pollyana não se deixava abater (?), não chorava, continuava, metodicamente, cumprindo suas obrigações diárias. Pensava: eu tenho um teto sobre minha cabeça (teto que durante as chuvas não retinha a água e quase vinha abaixo); via todos os filmes que queria (pirataria), jogava no computador (pirataria e o mesmo computador de 10 anos atrás). Por que se importar se não tinha o que comer? Era uma pessoa feliz! 

Trêmula, terminou a pintura, verificando que seu trabalho diário já estava todo finalizado. A casa impecavelmente limpa. A próxima providência que precisava tomar era alimentar-se, mas isso ela não podia... Não sabia o que fazer, mas estava bem claro, sempre com sua postura positiva, quando percebeu vagava pela rua, como se fosse pedir esmola, mas não faria isso, por quê? A única responsável pelo próprio sustento, ela era mesma!

Parou em uma banca de jornal, capa da Veja: “A força da mente” sobre o câncer da Preta Gil, não leu a revista, não tinha dinheiro para comprar... Somente pensou: “Viu, a atitude positiva é tudo na vida, cura até câncer!” Absorta em seus pensamentos, com a mesma postura positiva, forte, postura de vencedores, de quem nunca se deixará abater... Um Uber Eats veio desgovernado em sua direção, o motorista, com um peso absurdo nas costas e a barriga roncando, teve um mal súbito e perdeu o controle do veículo, chocando-se, direto, na capa da revista e contra o corpo esquelético da Pollyana... Ela nunca mais sentiu fome, nem o motorista do Uber Eats.  

Margareth Sales

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

O caçador


Trago verdades. Na realidade, ele se pensava um caçador, mas não era, era um predador, porém, ainda, não estava preparado para essa conversa... Obviamente, é uma cultura arraigada, na qual crê-se que a insistência é igual ao flerte. Ou seja, não consegue ler o outro, não entende que a tal insistência que, supostamente, dobraria a figura feminina caindo de afetos por esse suposto caçador é nada mais, nada menos, que incômoda.

Talvez o termo sedução deveria ser repensado e mais do que podemos imaginar, talvez a sedução seja abusiva. Até então, tanto machos quanto fêmeas estamos imbuídos nessa ideia. Ele flerta, ela vai diminuindo as resistências. Ele flerta, ela começa a tremer nas bases, ou seja, ele precisa flertar para vencer a resistência dela. Não é assim que entendemos esses anos todos? 

Rebobina... Voltemos ao início... Se ela tem reservas e construiu um muro, é possível que ela não quisesse ser assediada. Que é a palavra perfeita para essa situação. O que o caçador entende como flerte, como parte do jogo, talvez não seja de verdade um flerte e unicamente um assédio que é uma forma violenta de vencer a barreira do outro, impondo um desejo que só vem de um dos lados. E o flerte? Palavra antiga, provavelmente, pouco usada nos dias de hoje, porém me remete a uma situação mais calma, mais pacífica, mais ligada aos encontros. Ele oferece uma flor e ela se vê encantada com o gesto. Ela machuca o braço e ele delicadamente, não invadindo, claro, pega um band-aid e coloca na ferida. Voilà, o flerte.  

Já o assédio: surgiu uma proposta interessante de trabalho, ela disse sim, ao trabalho. Havia um escritório, no qual a esposa dele, também, trabalhava. E todas as reuniões de trabalho eram marcadas na região dos lagos, fora do escritório, fora do olhar da esposa. Na primeira reunião, ela foi, afinal, foi a primeira... E parte do trabalho estava, realmente, ali, naquele momento. Na segunda reunião, como não era um vínculo empregatício, mas uma colab, ela disse não. Justificativa? Era cedo demais, ela era noturna, estaria cansada e a pauta não apresentava propostas mais consistentes para o projeto ir à frente.  

Na terceira reunião... Ah! A terceira reunião... Mandou um montão de fotos, dos inúmeros escritórios do qual era proprietário. Nada com nada, do projeto que estava em fase de trâmite, apenas, semioticamente, uma sinalização de poder. Uma forma de mostrar que tinha dinheiro. Ela pensou que o único dinheiro que a interessava, seria o seu próprio, construído pelo seu trabalho, o resto? Só resto! E ele sensualizou a Coca-Cola. Meu, a Coca-Cola!!! Aquela do Lulu Santos “tomar o mundo feito Coca-Cola" simbolizando liberdade, nunca sexualidade, afinal, não estamos falando de uma taça de vinho branco, ou mesmo tinto! A Coca-Cola, o símbolo do verão, do urso polar comemorando o nosso Natal quente. Natal, família...  

Ela precisava daquele trampo, talvez fosse questão de vida ou morte, ou comida na panela e ele só queria jogar o jogo, mostrar o quão educado, provedor, inteligente, ou seja, um partidão (casado e patético) para resolver os problemas dela. Toda essa insistência em se fazer notar, em mandar mensagens de bom dia, diariamente, só causou ojeriza. Tudo o que ele achava que estava bonitinho, tudo que ele imaginou um empoderamento macho-hetero-alfa que faria, qualquer uma, derreter-se, só causou desconforto e, por fim, ela desapareceu... 

Não havia mais o que fazer, o projeto tinha um preço e pessoas escolhem o preço que querem pagar, ela não queria pagar esse preço. Caro, demais! 

Margareth Sales

terça-feira, 12 de setembro de 2023

CARTA AO BOLSA FAMÍLIA


 (Baseado em fatos reais)

Macabéa é unipessoal e precisou recadastrar o seu bolsa família, mesmo que o tenha feito há dois dias atrás. A iniciativa de passar um pente fino sob o unipessoal buscando revelar as fraudes era, totalmente, válida. O que Macabéa não percebia era a falta de dignidade ao qual foi exposta. A logística, da forma como foi feita era brutal! Filas quilométricas. No lugar do Assistente Social, quem preencheu a ficha, a mesma de sempre, foi um atendente, sem nenhuma empatia com o perfil de vulnerabilidade da população. Havia eficiência em pelo menos dois funcionários, uma das quais era Assistente Social.

Tudo pareceu normal para nossa personagem, ao entrar era perguntada a idade e, de acordo com a resposta, recebia um cartãozinho vermelho ou amarelo. Recebeu o vermelho e foi para uma espécie de “subsolo” lotada de pessoas famintas (literalmente), pois elas contavam isso. Diante desse cenário de “guerra”, sentiu uma coisa estranha, lembraria do Holocausto se tivesse seguido com a educação formal.

Tirando as devidas proporções, porque, obviamente, evocar o holocausto nessa situação sombria era natural ao nível do mal-estar, porém, há que se evidenciar as diferenças. De qualquer forma, o ambiente estava muito aquém da dignidade humana.

Quantas Macabéas no local e mesmo assim, foram elas que forneceram resposta para a logística absurda a que estavam submetidas: mais funcionários (óbvio) ou o atendimento na residência. A Assistência Social têm essa função, por que não usá-la? Indo a residência ficaria patente a fraude, daria para ver o quadro de unipessoalidade ou a mentira. 

Voltando ao sentimento violento que relembrava um holocausto: havia medo naquelas pessoas (Macabéas). Uma insegurança geral, as mentiras que assolam esse país: “Disseram que estamos aqui porque vão baixar os nossos rendimentos para 400 reais”. Era mentira, mas a personagem não sabia. Teve relatos bons: “Com a baixa dos preços, pude comprar, pela primeira vez em muito tempo, carne”.

Parte daquelas pessoas já tinham sido cortadas do programa, mais relatos: a usuária pagava 350 reais de aluguel e o que sobra, come. Como? A tristeza daquele ser humano em pedir para a dona da casa em que mora, segurar o débito, pois ela estava tentando reaver seu bolsa família. É super válido descobrir a fraude, mas penalizar quem realmente precisa é brutal!

Uma infinidade de relatos de pessoas cortadas e desesperadas, como se manter? Quando seriam reativadas, novamente? Macabéa estava apavorada. Como pagaria as contas? Como comeria? E seu cachorro-quente com coca-cola? Nada indicava que haveria suspensão, pois não havia fraude em seu caso, mas a mentira a dominou e perguntando a atendente, ela afirmou que aconteceria. Não aconteceu e quinze dias depois o dinheiro estava na conta, fielmente. A funcionária? Péssima, como tantos desviados de sua possibilidade de exercer algo que seja compatível com seu perfil. Obviamente, também deveria ter sido demitida e em seu lugar poderia entrar essa Macabéa que ao contrário da escrita por Clarice Lispector era uma excelente digitadora e, ainda, muito empática.

Não é possível alarmar uma população carente e vulnerável, não só financeiramente, mas socialmente, psicologicamente e outros “mentes”. É preciso responsabilidade social para que não se crie mais prisões mentais do que as que já existem na cabeça de uma pessoa vulnerável..

Margareth Sales

terça-feira, 15 de agosto de 2023

DIA DOS PAIS


Nunca foi confortável! Um dia que éramos obrigados a mostrar afeto por uma pessoa que só sabia gritar e culpar. Tudo era responsabilidade do outro, todos os problemas e dores nunca eram culpa de si mesmo, mas dessa alteridade que sempre cobrava, que sempre pedia posições. A obrigação de suspender o ritmo da família para simular um afeto que não existia, pois do contrário, seria a exposição brutal da fratura. Exposta desde sempre, mas tacitamente negada para nunca entrar em contato com os verdadeiros sentimentos. Esses que são capazes de dissociar, de provocar uma ruptura no self ao se ver, de verdade. 

Quando a comemoração do dia dos pais cessara, há 21 anos atrás, foi um alívio. Não mais a encenação falaciosa de uma situação que nunca foi real, de um afeto que foi dilapidado pelos maus-tratos e pelas gritarias incessantes... Uma família com quadro sério de violência familiar, sob a égide do psicológico... 

Nesse último Dia dos Pais, como em alguns, no qual a maioria expõe afeto como posse, uma espécie de “eu tenho você não tem!” brutal, pois que nem todos tem, realmente. E, também, muitos que não tem perceberam de fato uma liberdade da violência e que, realística e secamente, foi a melhor coisa que lhes aconteceram. E nesse sentido, estes não fazem parte da festa.

E tudo bem! Pois a maturidade predispõe saber que não somos convidados para todas, mesmo aquelas de caráter universal. O problema é quando a festa invade suas narinas... O que nem sempre é preocupante, porque depois de uma boa refeição, ou mesmo, fazer um churrascão só para você e se trancar com seus filmes, seu videogame do final de semana. O amor pessoal tem essa característica de te fazer ser capaz de curtir só, consigo mesma! Tudo ok, mas citei as narinas... se o churrasco do seu vizinho não invadisse as suas narinas que não tinha o que comer nesse domingo e sabia que a segunda e a terça ainda seriam piores... 

A partir desse momento, que seu pensamento está confuso, por falta de proteínas; que é violento assistir um filme, pois eles comem o tempo todo, como que jogando na sua cara que você não tem, mas precisa... Você pagou as contas, mas não sobrou para comer... Então, você tem a luz elétrica para assistir qualquer filme, pois transvestindo-se de Jack Sparrow você tem acesso a todo filme que deseja assistir. Tem o jogo de videogame que você gosta, pois naquele momento que entrou mais dinheiro, que deu para pagar as contas e comer, você pode se dar ao direito de ter lazer e comprou seu joguinho: “A gente não que só comida, a gente que comida, diversão e água...” 

Você tenta esquecer que tem um buraco no estômago, divertindo-se, você esquece que ao levantar da cadeira vai se sentir tonto, afinal, já está na meia idade e está com fome. Por mais que ninguém veja, seu corpo treme por dentro e você sente isso, como um recado: estou com fome! E a noite rola de fome na cama... 

No final, você torce que o Dia dos Pais acabe o mais rápido possível para parar de sentir o odor do churrasco do vizinho que abate seu ânimo, mas sendo brasileira, você encontra forças para saber que o humor está deprimido (é muita fome), mas você vai tentar curtir o fim de semana, sem nada no estômago, porém alimentando o desejo com um bom jogo ou um filme confortável, de preferência que não apareça mesas fartas... 

Margareth Sales

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Crítica da Música Déjà Vu, da Pitty



Entendo a música como uma crise de maturidade, pois a mesma pressupõe saber lidar com as angústias que são inevitáveis, não mergulhando nestas! 

Nenhuma verdade me machuca 

Quando avançamos em maturidade emocional estamos prontos a aceitar um contingente muito maior de verdades sem a desestruturação. Nesse sentido, encaixam-se os motivos que não conseguem mais corroer... 

Nenhum motivo me corrói 

Até se eu ficar só na vontade, já não dói 

Temperança, você consegue equilibrar e controlar os desejos. 

Nenhuma doutrina me convence 

Consciência de que Doutrina não é A verdade, mas uma das diversas formas de se relacionar com o todo. 

Nenhuma resposta me satisfaz 

As duas frases se correlacionam tanto doutrina quanto respostas dependem da pessoa, não são normas inquestionáveis. 

Nem mesmo o tédio me surpreende mais 

Tédio que faz parte da vida. 

Mas eu sinto que eu 'to viva 

A cada banho de chuva que chega molhando meu corpo nu 

Renovo, esperança, apesar das dores e angústias, não é só isso! 

Nenhum sofrimento me comove 

Ontologicamente vivemos TODOS os sofrimentos em nossa própria carne. Não desmerecendo situações profundamente trágicas e fora de todo o universo de possibilidade em respirar... (ser), mas já vivemos tudo, separadamente! 

Nenhum programa me distrai 

Parece ser um reconhecimento mais visceral da miséria humana, até porque existe uma ambiguidade, pois a chuva distraí e ela se sente viva. 

Eu ouvi promessas e isso não me atrai 

Promessa não são ações. 

E não há razão que me governe 

Nenhuma lei prá me guiar 

Sem razão e sem lei significam que há possibilidades para além da norma, das regras, porque estas podem ser engessantes. 

Eu 'to exatamente aonde eu queria estar 

Uma escolha, uma necessidade real de ser como é, apesar de... e aí retorna ao sentimento de estar vida. Tal sobriedade ocorreu porque...

A minha alma nem me lembro mais 

Em que esquina se perdeu 

Ou em que mundo se enfiou 

Mas já faz algum tempo 

Tal perda foi no passado! 

Já faz algum tempo 

Mas eu não tenho pressa 

Finalizando com um procura por essa alma, mas sem pressa... Um encontro cada vez maior consigo mesma. Um respeito aos próprios processos.


Margareth Sales

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Poetar


 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Relações Abusivas


 

Desde 1995 estive com você! Mesmo que você sempre se fechasse para mim, do nada. Praticando operações ilegais todo o tempo. Tirava o dinheiro da minha bolsa, justificando que nossa relação iria melhorar! Não passava muito tempo para que todo o conflito de antes voltasse, novamente, a acontecer. E eu destruindo o meu psicológico, torcendo, que não se travasse para mim, que não se corrompesse, deixando muito claro que você não foi estável, mas eu acreditava... Já são 26 anos nessa relação e aos poucos foi piorando, enquanto você envelhecia, mesmo se atualizando, não resolvia, pois diversos novos problemas foram surgindo!

Comecei a flertar com outro, mas a Síndrome de Estocolmo me fazia voltar para você. Aquele famoso costume que não permitia que experimentasse, de verdade, o novo!Nas primeiras semanas foi difícil, não conseguia parar de pensar como era mais fácil com você, pois já te conhecia, passamos muitos anos trabalhando juntos. Bem ao contrário do que vivo agora, no qual eu começa a conhecer essa minha nova possibilidade, parece que meu universo foi virado de ponta à cabeça e tenho que reaprender tudo novamente... Os novos erros me angustiavam, pois davam a falsa impressão de que seria muito difícil trabalhar com estes, mas tem sido o oposto, cada novo erro é consertado na manhã seguinte e não volta mais... Dessa vez, todos os novos conflitos são oportunidade de mudança e crescimento para um comportamento mais robusto e seguro.

Eu me sentia estranha, principalmente quando sabiam que não estava mais com você. Há valorização por uma aparente casca de eficiência quando no fundo só existe instabilidade, mas as pessoas tendem a comprar o que todos compram. Portanto, é difícil fazer frente aquilo que a opinião popular atesta como imprescindível. Afinal, é uma nova linguagem em detrimento à antiga que dominávamos tão bem!

Me senti insegura, parecia um erro, como abandonar quando foram mais de duas décadas andando juntos? Como deixar tudo para trás? Como não vestir a carapaça de sequelada mentalmente por me afastar desse que é tão valorizado pelo mercado?!

Mesmo com todo o revés, soube que não havia mais chance de volta. Você tirou o meu caçula e até agora tenho lutado ininterruptamente para reavê-lo, penso até em dar-lhe um irmãozinho, mas não arrisco enquanto toda essa transição não estiver completa.

Acredito que depois de ter me feito temer só de estar perto de você, meu coração acelerar, pois a qualquer momento eu poderia ter um crash total com sua constante instabilidade, é preciso dizer adeus Windows, estou tentando um novo relacionamento com o Linux que é aberto e aceita desenvolvimento pessoal, não tem domínio, é livre! Mesmo, claramente, não sendo tão fácil me afastar de você, principalmente porque geramos filhos: o CorelDraw, o Photoshop e o fofo que só vive jogando, o The Sims!

Entretanto, é em nome desses filhos que tenho feito todo o meu possível para adaptá-los a este novo universo expandido que aceita todos as contribuições possíveis quando visam ao aperfeiçoamento. Em nada parecido com você que se fecha e se torna inacessível a comunidade. Só posso finalizar apresentando meu luto e ansiar para que meu relacionamento com o Linux sirva de exemplo para que mais pessoas possam descobrir que existem novas possibilidades se o olhar buscar fora das janelas!

Margareth Sales

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Profissão Escritora


Muita coisa antiga tem voltado a minha memória! Acredito que por ser um momento, no qual a terapia de presencial passou a ser por telefone, acabando por se tornar uma espécie de divã mais efetivo e rápido! Diante disso, uma memória que me veio agora foi a de que desde 1983, com apenas 13 anos de idade, a Secretaria de Estado de Educação validou o meu perfil como escritora. Estava juntando esses dados na memória, pois estou imersa na escrita sobre a escrita.

Portanto, para mim que estou há muito tempo perseguindo essa carreira fica muito real todas as fraturas, os maus entendidos que um profissional da área de escrita atravessa. Já vi muita inveja e mesquinharia. Praticamente, não vi o que muitas escritoras viram: o domínio do masculino sobre a área, mas sei que é real, nunca foi uma questão para mim! O que mais me angustiava, no início, era reconhecer que a profissão precisa de validação de fora para ser exercida! Só que os tempos mudaram...

Entretanto, por mais que seja arcaico o pensamento, ainda vemos gente que se vale dele para destituir, assim surgem frases como: "Mas você não é escritora, você não foi publicada!". Já ouvi muito isso, mesmo sendo publicada pela primeira vez aos 13 anos de idade e aos 18 trabalhar dois anos como colunista de um jornal, sendo paga para tal! Contudo, isso está longe de ser um gatilho para mim, é muita terapia, para realmente não esperar validação do outro. Sou perfeitamente capaz de me validar, pois já é tempo de entender o que a constituição de 1988 já tinha previsto, ou seja, é no fazer que a pessoa se torna profissional, salvo algumas raras exceções que precisam oficialmente de diploma como a medicina, por exemplo.

Mas o que, realmente, me dói? São pessoas que postam em seu facebook que se você está passando fome, por favor, peça ajuda, pois eles podem dividir o pouco que tem?! Whattt??? Levar a questão da falta de emprego formal para o domínio da doação, que pressupõe esmola, só contribui com a atual gestão presidencial. Isso porque, a arte como qualquer forma de trabalho precisa ser valorizada, mas não com a falsa premissa de empreendedorismo, não é empreendedor a partir do momento que se vende o almoço para pagar a janta! Haja vista, que para a real acepção de empreendedorismo é preciso capital de giro. E individar-se no cartão para comprar uma moto para tornar-se entregador para as grandes empresas de consumo digital não é capital de giro é individamento, sem retornos!

Assim, não ofereça dividir o seu prato de comida: compre daquela pessoa, compre o que ela vende. Sem julgamentos... Retornando, a questão autoria escritural, o mercado literário é tão competitivo que pessoas te destratam porque você escolheu essa profissão, através da frase já dita anteriormente ou mesmo revirando os olhos para a sua obra. Uma fábula antiga já contou que as uvas do vizinho estão verdes, portanto, não serve para você, não é, coleguinha?!
😛
Há que se entender que invalidar o perfil profissional do outro, principalmente, no que tange a escrita é uma prática que tem funcionado até os dias de hoje, mas que expõe aquele que usa de tal artifício. Pessoas que costumam colaborar com a arte, são sempre mais bem vistas no meio social do que aqueles que reviram os olhos e diz que o fruto está verde, ainda!

Ou mesmo, aqueles que tendo optado pela escrita como uma atividade secundária com a qual não buscam retorno financeiro e julgam quem têm a ousadia de confrontar as normas pré-estabelecidas, ou seja, aqueles que pensam fora da caixinha! Isso também fica feio, pois também já é do domínio popular saber que todo aquele que aponta o dedo à alteridade, recebe como retorno quatro dedos apontando de volta. Não seria mais plausível assumir que se jogar na vida não é o seu perfil, pois o medo é maior?! Porque por outro lado, aquele que se joga também tem seu próprio revés, por vezes, não conseguindo nem se alimentar direito. Não foi isso que a leitura do Quarto de Despejo nos ensinou? Que uma profissional gabaritada como Carolina Maria de Jesus passava fome em função da inveja e mesquinharia do vizinho! É mister construir uma nova sociedade, mais empática, mais inteira, com mais possibilidades de curtir um ócio criativo por meio da arte, sendo menos workaholic.

Margareth Sales

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Setembro Amarelo

 

Vamos falar dessa máxima, antiga, redutora e arcaica de que alguns não trabalham... Passei minha maturidade, criando um perfil trabalhista para mim, a primeira razão: meu primeiro emprego fixo foi no CIEP, com crianças, no meio de uma depressão intensa, sem medicação, sem saber que, aliado a depressão, eu tinha Transtorno de Ansiedade Generalizada. Eu acordava 6 horas da manhã para estar no CIEP às 8 e eu sou noturna (isso é um perfil biológico - já tive médico me empurrando remédio goela à baixo para eu conseguir acordar cedo, não adiantou só piorou meu quadro clínico). Eu chegava no Ciep, antes de pegar os alunos na fila, e ia para o banheiro chorar. Eu chorava em sala de aula, eu não sabia fazer os alunos me respeitarem, como? Desiquilibrada do jeito que estava. Eu vivia angustiada, com dor emocional e não conseguia nem ficar acordada para ter lazer com o dinheiro fixo que ganhava. Esse dinheiro não dava para nada, obviamente que com salário fixo, eu poderia ter saído de casa, mas não havia como eu entender que essa possibilidade existia, pois a dor era maior do que o raciocínio lógico. Tentei através de psiquiatra, fornecido pelo estado, me encostar, claro que eu era muito nova (23 anos), mas qualquer profissional competente saberia que não tinha condições laborais, mas não, o idiota disse que eu estava bem! Eu era suicida (bem, pelo que sei para quem tem esse perfil não existe cura, nunca li, nunca aprendi com os profissionais da área de saúde mental que há cura!) como eu estava bem? Eu chorava com meus amigos da vizinhança, eu chorava 24 horas, eu sentia dor emocional, eu sentia medo da vida, eu já tive ocasiões de pedir as pessoas que me levassem até o ponto do ônibus, pois tinha medo de ir até lá, sentindo que um buraco se abria à minha frente e me devorava! Eu passei quase 50 anos com medo da minha mãe, do meu irmão, do meu pai, de alguns primos evangélicos...

Eu estou falando sobre trabalho ou sobre Setembro Amarelo? Os dois? O pior do sentimento de depressão aliado à ansiedade é não conseguir deter o corpo! Sabe aquelas cenas brutais de corpo caindo no chão depois de uma experiência de trauma? Sim, é assim que pessoas com dores emocionais se sentem. O corpo não contém, o corpo parece querer explodir, alguns depressivos conseguem ficar na cama e não sair dela mais... Não era o meu caso, meu corpo se agitava. Eu precisava andar. Disse para um amigo, uma vez: eu quero andar sem parar e não voltar mais, meio Forrest Gump. Eu não conseguia ficar em casa, me tornei evangélica para fugir de casa, para estar na igreja, para que Cristo matasse meus demônios emocionais (não adiantou, diziam que era falta de fé! Remeto a assertiva à cena da Carrie Bradshow defendendo a Charlote numa palestra motivacional dizendo que sim ela tinha fé), assim afirmo que sou uma pessoa de fé e que se fosse por fé, eu tinha me curado, com certeza!

A fé não me curou, a arte não me curou, tanto como não curou a Clarice, não posso defender isso na minha dissertação, mas no meu facebook posso falar achismos. Portanto, a arte nunca curou o artista: VanGogh, Kafka, Virgínia Woolf e tantos outros, Vivienne Haigh-Wood, primeira esposa de T.S.Eliot foi tratada como louca porque possuía um distúrbio menstrual intenso, ou seja, a ciência tem avançado no conhecimento das doenças psíquicas e deixando para trás o estigma de loucura. Com a arte fui, aos poucos, aprendendo a trabalhar meu humor e criar para me sentir melhor, emocionalmente. Nesse sentido, foi só durante a década de 90, depois de largar o estado, passar pelo shopping, como vendedora, comprar meu primeiro computador em 1995, sem emprego fixo, que passei a trabalhar em casa das mais variadas formas possíveis como autônoma. No passado, algumas vezes ajudando meu irmão na gráfica, no qual ele recebia, era independente e eu só a mulher que tem que ajudar a família, mas sem ganhos! Meu pai me ensinou a imprimir na máquina manual e na gigantona, aquela anterior a offset, mas possivelmente porque não iriam me pagar para eu trabalhar eu não fui à frente, nunca aprendi a montar os tipos para fazer a chapa, me sentia burra, achava que não conseguiria. A gráfica passou do meu pai para meu irmão, ele ficou com o dinheiro e eu era estigmatizada de vagabunda, pois só estudava!

Havia uma possibilidade, eu ir à rua pegar clientes, como fez meu irmão a partir dos 9 anos de idade. Nesse sentido, o irmão mal, também precisa ser exaltado, pois tem suas qualidades, enfrentou a vida a partir dos 9 e sempre foi vitorioso, até mesmo no casamento que muitos fracassam, ele têm uma família linda! Porque não ia a rua procurar clientes? Simples (sarcasmo)! Fui ensinada que era burra em matemática e tinha medo de fazer os cálculos de cobrança! Porque então aos 48 anos de idade eu aprendi a fazer tais cálculos e se você me pedir um banner de 1m por 22cm eu sei fazer o cálculo? Porque mesmo sendo de letras, nunca fui burra em matemática, somente aceitava o que diziam que eu era, identidades roubadas! E o resultado foi pela primeira vez entender que estava começando a fazer dinheiro em gráfica, como minha família de muitos gráficos e por isso voltei a ter crédito na praça e comecei a reformar, comprar e veio a pandemia... Começo, primeiros passos, primeiros clientes, Bankruptcy!!!

Nesse sentido, meu trabalho sempre foi criação, sempre foi arte e não tem como dizer que porque não vou a rua procurar clientes em um momento pandêmico não trabalho. Se não trabalhasse, voltaria para o quadro clínico que me remete a depressão. Insisto que em 98% da minha vida diária não sinto depressão, me sinto perfeitamente adaptada ao isolamento social, não surtei, entendo que a maioria surtou. Não é meu caso, mas sim continuo sentindo ansiedade intensa, mas sei trabalhar com ela e Pânico, brutal, desconcertante e me acorda em darkness profunda que se dissipa em função do trabalho diário, ao sentar no computador volto a me sentir bem. Não me sinto sozinha, mas quando converso com amigo, vejo a necessidade de gente e desato a falar feito papagaio.

Concluindo... o que levou para longe a angustia depressiva? O tratamento no Centro de Orientação a Mulher (CEOM) aqui da cidade e fui encaminhada em uma entrevista de emprego (2015) para pedagoga, pois quando ela perguntou para mim quais as minhas qualidades, desabei a chorar! NUMA ENTREVISTA DE EMPREGO?! Alôooo!!! E a Marisa disse: "você é vítima de violência familiar" vou te encaminhar para o CEOM e eu respondi que tinha aula na UERJ, não podia faltar (não falto aula), ela não "deixou", disse que eu não poderia ir estudar sem conversar no CEOM, ligou, a prefeitura daqui mandou um carro me buscar e me levar ao CEOM. Entrei em um tratamento com assistente social, advogado, psicólogo, além da sexta básica para quem está em vulnerabilidade financeira. Já no começo do trabalho, a depressão foi a primeira a dar tchau... Ao longo do tempo e por uma leitura de mundo atenta (Ah! Paulo Freire, te amo), coloquei para o meu psicólogo que achava que tinha TAG e procurei um psiquiátrica. Não deu outra, entrei na medicação e descobri no Ambulatório Nize da Silveira um grupo chamado loucos pela vida. O que seria isso? Um grupo de apoio para suicidas e aí eu finalizo com Setembro Amarelo: "Não me perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti!" - John Donne. Cada vida é especial, os suicidas não estão com fogo no rabo, muitas vezes não entendem quando você fala que passou pelo mesmo e deu conta, pois possivelmente eles só darão conta com terapia + medicação. Suicidas não ficam bem quando são ameaçados de mármore do inferno, mas o inferno não é quente? O inferno não está destinado aos suicidas e que me desculpem os amigos evangélicos se vierem postar assertivas de fé tresloucada, pois serão apagados! A fé não salva suicidas, a força de vontade não salva suicidas, como não salva alcoólicos, quem trata alcoolismo só o AA e suas divisões. Empatia ajuda, mas não trata. Nos meus 49 anos só conheci duas músicas que esclareciam perfeitamente o suicídio e quem fica e as duas são de Pitty: Pulsos e Lado de lá e elas não deprimem! Me ajudam no momento que me sinto suicida e só me sinto suicida, atualmente, quando a má política tira direitos essenciais! A música pulsos fala para guardar as linhas horizontais e tentar achar que é todo mal, exercitando a paciência, mas ao dizer que os pulsos são a saída de emergência, a música livra do peso de achar que é um erro o suicídio! Para o suicida o suicídio não é um erro, mas uma saída! E não sei dos outros, sei de mim que quando a dor era atroz, lá atrás, eu imaginava um outro mundo em que não doesse tanto! Mas quem vai dar o salto? Quem vai descobrir se é ou não? Kurt Cobain não voltou para contar, nem Virginía Woolf, muito menos Walter Benjamin! E a música Lado de lá, confirma a assertiva de que há dúvidas sobre o lado de lá, ao mesmo tempo em que "e levou de mim aquele talvez rir de tudo no fim", ou seja, foi brutal ao tirar da pessoa do lado de cá o convívio, o amor, mas quem está do lado da vida tem a esperança em rir de tudo no fim... Nesse Setembro Amarelo para ajudar o suicida deixe o telefone/messenger/whastsapp aberto para ele, ouça sem julgar, não minimize a dor do outro, não se compare, pois somos infinitamente diferente de outros. Não dê conselhos, só quem está habilitado a dar feedback são os profissionais de saúde mental, até os profissionais de saúde física precisam encaminhar se sentirem que o paciente pretende adiantar a viagem para o lado de lá!

Margareth Sales

sábado, 25 de abril de 2020

25 de Abril de 2020



O meu desejo que tudo isso acabe logo é o mais bizarro possível: me irrita todo esse ritual de TOC que temos que nos submeter ao evitar o vírus! Quantas vezes, a gente já não comeu naquilo que alguns chamam de podrão? Ou seja, um X-Tudo no trailler da esquina com todo poeira da rua invadindo o seu lanche? Sim, sou daquelas que sabe que, realmente, criamos anticorpos para muita coisa, porém é mais do que óbvio que o maior problema do COVID-19 não é a doença em sim, mas a velocidade exponencial com que se contrai a doença. 
Vírus e bactéria da rua ou mesmo do contato com dinheiro, que sempre foi considerado muito sujo, é mais fácil de trabalhar do que a forma exponencial com que esse vírus age.
Mudando de assunto, estou assistindo pela primeira vez House of Cards, nos primeiros quinze minutos, duvidei que o seriado ia me pegar. Entretanto, com o avançar dos episódios e vendo a maneira como o universo psicológico das pessoas é muito bem trabalhado no seriado, acabou por me interessar! A primeira cena do Frank/Francis na birosquinha de esquina que ele, sempre, frequenta, foi semioticamente, perfeita: mostra o quanto aquele homem tem espírito predador! Ou seja, estamos falando de um sociopata de carteirinha. Por desdobramento, fica a pergunta, isso em 2013 quando o seriado começou: o quanto temos de socio/psicopatia arraigado no meio político? De fato, não é nenhuma constatação surpresa, a surpresa é ver algum sem verniz ocupar o cargo! 
Dado que sendo ou não sendo um sociopata, porque são classes distintas de pessoas, não há como fugir do animal que somos e do egoísmo que nos portamos no trato, real, com o próximo. O verniz serve, exatamente, como o freio entre a barbárie e a civilização. Porque um grupo de pessoas, cansadas com o que chamam de politicamente correto resolveu deixar cair as máscaras do social? Por outro lado, acredito que na prática, só jogaram o bode expiatório ao escrutínio publico, e estão escondido atrás dos votos e quando não, escondidos por detrás da tela do computador. 
Como dito, o verniz faz toda a diferença, pois permite que o egoísmo seja contornado pela ética e a sociedade avance em projetos sociais. A exemplo, do seriado, talvez os sociopatas na política não sejam o pior dos mundos. Vivemos com eles até aqui, né? Ao mesmo tempo, que contraditoriamente, desde 2018 tenho visto apontar uma classe mais humano de políticos que estão sendo rechaçados por anos de mutreta! A ética política é a da máfia, se deu a palavra, cumpra! Quando alguém acha que a palavra não importa mais, que posso falar e desmentir mais a frente, que posso fazer o que quiser, pois não há filtros! Essa pessoa, para mim, é o psicopata mais perigoso que existe, pois não se esconde. Valida assim, não o oba-oba que estamos tão acostumados, mas a perversidade que sem freios, tão qual o vírus consegue ser exponencial e aí é apocalipse...


terça-feira, 21 de abril de 2020

21 de Abril de 2020

#emcasa #fiqueemcasa


Acredito que já tenha um mês de isolamento social, sei que para alguns já completou! Uso o termo isolamento social, pois aprendi via postagem de um conhecido, que não é quarentena, pois você não está doente! Obviamente, quem busca as informações corretas, sabe que não sabemos se estamos com vírus, pois muitos são assintomáticos. 

Anyway, como hoje é feriado, assisti um filme inédito para mim "Swallow", me atraiu pela sinopse (e não é a sinopse que nos atraí?), mas fiquei com medo: tenho predileção por doenças emocionais, sempre foi foco dos meus estudos, por isso, minha primeira graduação foi psicologia, sou empática, consigo VER as pessoas e ótima ouvinte no que diz respeito a dor do outro. Por esse motivo, para mim, ser psicóloga era um desdobramento natural. Isso começou na infância e culminou em 2003 quando iniciei a graduação, não conclui, era particular a faculdade e uma das mais caras. Em 2013 ao iniciar a Letras, percebo que percorri um caminho tão grande quando a psicanálise seria só ferramenta da escrita. De qualquer forma, não é preciso muita explicação para entender que os grandes caminhos e bifurcados compreendem uma gama de conhecimento muito maior do que a linha reta até o alvo! Como fã do conhecimento...

Voltando e tentando não divagar muito (impossível!), o filme/a sinopse: uma mulher bonita (ou seja, beleza chama a atenção junto com a sinopse - divagando... de novo) engole objetos e a família do marido surge com a ajuda para desvendar os mistérios escondidos... Me comprou, mas o tópico era medo... Porquê medo? Estamos isolados socialmente das pessoas, com ininterruptas informações diárias sobre mortes ou apontando para estas, não estou muito afim de coisas dolorosas quero filmes de sessão da tarde com crianças unindo pais ou possíveis casais! Então, o medo é de assistir algo deprimente, não foi o caso, o filme mostra a angústia da protagonista e fala sobre doença emocional de uma forma bem didática e, apresenta, um dos muitos universos de todo um globo que possivelmente vive as mesmas situações, sem contudo, manifestar os mesmos sintomas. Ou seja, abre um leque já falado no seriado Sharp Objects (gostei!).

Fazendo dobradinha de conhecimento, partir do filme para a leitura de Clarice, pois hoje tem vídeo-orientação de Mestrado, mesmo sendo feriado, foi uma escolha minha, pois odeio "tirar o pai da forca", deixar a dissertação para quando o calendário UFF voltar. Não, vamos adiantar nossa vida e aí curtir a UFF presencialmente em 2021 (na realidade, sou das que acreditam que 2020 foi finalizada com insucesso!). Divagando, novamente... Volta, Margareth: estou lendo então "Perto do coração Selvagem", as primeiras linhas já são impactantes, o que me faz pensar, novamente, caramba, essa é a minha escrita, é assim que gosto de escrever! Cheguei na Letras (2013), meio saturada dos romances, li muito mais século XIX do que qualquer outro período, naturalista ou não, aquilo tudo para mim cheira a romance, estava cansada menino encontra menina, pelo menos na literatura, a fórmula em filmes me atrai, principalmente, agora, que quero consumir relaxantes mentais. 

... Cheguei na Letras... já em 2016 em Brasileira V, tivemos que ler "A hora da Estrela", me fisgou, não a mesma sensação, mas a percepção de que aquela era minha praia, para entender que eu escrevia assim foi muita terapia, mais escrita de um diário depois de ter lido Carolina Maria de Jesus, pronto! Inaugurado estava a verdadeira forma com que escrevo!

Assim, meu terapeuta em minha telefone-sessão, me instigou a usar minhas percepções do momento isolamento social como matéria-prima para fazer algo, o quê? A função dele não é me dizer, é fomentar o movimento! Parece que assistir algo entre semana passada e essa (não lembro o quê?), a quantidade de filmes e seriados que assisto não está no gibi!!! Só tem me ficado na memória os mais impactantes! Então, algum seriado ou filme me fez lembrar que blog, originalmente, era um diário e que muitas vezes trouxe engajamento de público. Na atual conjuntura lives diárias, engajamento de público é o que as pessoas procuram. Sim, busco isso, por ser escritora, para cada escritor supõe-se um provável público leitor.

Entretanto, dado que tive a ideia na configuração de informações surgidas diariamente em minha vida, porém tenho tempo para isso? Um redondo nnnãããããoooo, como homeoffice continuo com o mesmo volume de trabalho de antes, haja vista, orientação no feriado?! Exceto a parte de ir a rua, fazer contato com cliente e remuneração zerada! Sem tempo, é quase inviável pensar em me dedicar a esse diário de isolamento social, mas ao mesmo tempo, urge a palavra! Tem sido dias de insight, de ir lá dentro daquele suposto iceberg do inconsciente freudiano. É quase uma obrigação vomitar, deglutir, publicar esses relatos, já fiz isso, duas vezes, é a minha terceira, nem imagino o que escrevi, nesses dois dias anteriores, sei que escrevi!

Sei também que, no momento, não ficarei muito preocupada com gramática, pois a perfeição do texto, pressupõe a não ser ao vivo, ou na linguagem de hoje, uma live!!! Pretendo, escrever quando a necessidade ditar, como ditou agora e vamos ver o que acontece....

terça-feira, 14 de abril de 2020

14 de abril de 2020


14 de abril de 2020

É difícil quando você começa a ter sentimentos há muito tempo extinguidos de sua vida. Não posso dizer que acordei hoje triste! O sentimento é de depressão e quanto tempo faz que esse sentimento não me assombra mais? Vinte anos? Talvez menos! De qualquer forma, um cansaço imenso e uma vontade de só dormir.

É muito difícil optar por só dormir, quase nunca deixo isso acontecer. Começo a trabalhar e o sentimento desaparece! Hoje não foi assim, e por incrível que parece veio serviço de fora. Serviço intelectual que me exaure, mas tive que abrir uma exceção. O pior é não poder cobrar 300 reais pela minha tarde toda ocupada, a exceção pressupõe saber que a pessoa não tem condições de pagar tal preço. Foram 100 páginas lidas, um resumo mental do assunto e nada disso fez correr o desgaste emocional. Ao contrário, piorou! Isso tudo não me assusta, pois em pouco tempo me recupero e me sinto feliz novamente, só por estar dentro da minha pele, dentro do meu espaço. Me sinto o Sheldon Cooper em romance Ad Eternum com o conhecimento, acrescento, no meu caso: romance eterno com a criatividade! Na leitura das 100 páginas dei uma cochilada, me sinto cansada, quero dormir, principalmente, quero me dar o direito de dormir cedo em uma terça-feira, pois é sempre tanto trabalho, afazeres, uma vida que não existe mais e imagino esse momento de isolamento social como um momento de: “Pare” Agora”! Bem música de Roberto Carlos.